Pouco mais de um ano antes, em outubro de 2005, o próprio frei Luiz - como gosta de ser chamado - era recebido no mesmo cais por 3 mil pessoas. Ele havia passado 11 dias em greve de fome em protesto contra o projeto do governo federal de retirar parte da água do São Francisco no intuito de interligá-lo a outras bacias do Nordeste, servindo sobretudo à irrigação de áreas críticas do semi-árido de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O episódio estampou manchetes no Brasil e no mundo, valendo ao religioso até uma comparação, no semanário inglês The Economist, com Mahatma Gandhi por sua atitude de impacto e não-violência. "Antes de se levar a água do rio a lugares distantes, é preciso revitalizá-lo", argumenta, na entrevista que me deu numa tarde de setembro. Frei Luiz diz que seu gesto foi certeiro: depois do clamor do Vaticano e da intervenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o padre encerrou o jejum suicida quando ouviu que a prioridade federal passaria a ser a recuperação do rio. Com uma liminar impetrada pelo governo da Bahia, as obras da transposição estão suspensas.
Barra poderia ser apenas mais um dos 500 municípios à beira do maior rio que nasce e deságua em terras brasileiras. Distante longínquos 670 quilômetros a oeste de sua capital, Salvador, fica diante do encontro das águas barrentas do São Francisco com as esverdeadas do rio Grande, o maior de seus 168 afluentes. Vive da agropecuária. Sob um Sol de rachar, vi engenhos tocados por bois, um jegue aqui, um calango ali. Na área urbana, com um belo casario neoclássico do século 19, alguns de seus 23 mil habitantes assistem televisão na praça. O mercado a céu aberto vende desde carne de porco até rapadura, e os carros de som são os responsáveis pela divulgação de tudo, de um sorteio de um Fiat Tempra ano 1993 à grande atração da noite de sábado, um simplório circo recém-chegado cuja atração principal era um show da lendária dançarina Gretchen.
Mas Barra é a cidade do frei Luiz, e isso muda tudo. "Veja o livro de versos que estou fazendo sobre ele", diz Pedro Reis, o Foguinho de Barra, como se auto-intitula um senhor negro de cabelos pintados de vermelho ao me abordar na rua. Durante a missa das 6 da tarde, percebi beatas usando fotos do rosto do frei como marcadores de livros de cânticos. Joana Camandaroba, 92 anos e quatro livros publicados, vai mais longe: "O homem é santo!". Ela conta que viveu a maior agonia de sua vida durante a greve de fome dele. Foi quando as igrejas de Barra ficaram lotadas nas novenas, e centenas de fiéis de todo o Nordeste seguiram à cidade pernambucana de Cabrobó, escolhida pelo padre para seu martírio (por ser o ponto da tomada de água do eixo norte do projeto de transposição). Só de Aracaju chegaram 25 ônibus. Sete fiéis acompanharam o frei na abstinência de comida. E até o pai-de-santo de Barra, o respeitado artesão José Geraldo da Silva, o Gerard, chorou pelo padre.
Mobilizações como a que se viu durante o jejum não são raras em Barra. A cidade sempre se organiza em eventos populares, como a Festa do Divino, com apresentação de marujada, em maio, e nos festejos de São João, em junho, um dos mais tradicionais do sertão. É quando a população urbana é duplicada durante o espetáculo pirotécnico dos buscapés de estouro. Eles são explodidos pelos mais valentes entre as centenas de barrenses que desfilam nos "fortes", blocos que simulam os conflitos da Guerra do Paraguai. "Barra foi a única cidade que não teve baixas entre os 100 soldados que mandou para a guerra", explica a escritora Joana Camandaroba.
"O rio São Francisco é a condição de vida para esse povo, e essa vida está ameaçada", diz frei Luiz, em referência aos quase 12 milhões de brasileiros que vivem no entorno do rio. É fácil entender por que essa gente projetou nele a imagem de salvador-da-pátria. Nos seus sermões, o religioso não se intimida ao discursar contra as condições de trabalho "infernais" nas carvoarias e ao estimular denúncias sobre as plantações de maconha na região, algo que já lhe rendeu ameaças de morte e a decisão de não mais viajar só.
O apoio ao padre e à sua causa ficam ainda mais claros quando se percebe como o cotidiano de Barra está ligado ao rio. Num passeio de barco que faria com pescadores, vi homens jogando suas redes e tarrafas no rio, lavadeiras agachadas a esfregar roupas e louças, vacas e porcos bebendo água nas beiradas, homens lavando jegues e motos. No fim de semana, famílias inteiras e grupos de amigos transformariam o cenário dos arredores do porto em duas praias para banhos com música ao vivo e peladas de futebol.
Os problemas, contudo, apresentam-se à mesma medida que o uso intensivo do rio. Apesar de barrentas, as águas são usadas para beber e para irrigar plantações - e muitas vezes contaminadas pelos agrotóxicos das roças. "O desmatamento das margens contribuiu para que o assoreamento se tornasse um dos mais graves problemas", avalia Rodrigo Fiúza, o remador que aportou na cidade em setembro. O esgoto de Barra é despejado no rio in natura, sem tratamento, quase uma regra entre as cidades ao longo de seu curso de 2,7 mil quilômetros - o São Francisco cruza cinco estados, e já possui quatro usinas hidrelétricas. Para piorar o quadro, um incêndio recente na serra da Canastra, em Minas, destruiu 60% do parque que abriga a nascente consagrada do rio.
"Há cada vez menos peixes, e eles estão menores", lamenta o pescador Givaldo Ramos, que tinha nas mãos um surubim de 16 quilos. "Uns meses atrás, mais de 100 surubins passaram por aqui boiando, mortos", denuncia. O morticínio foi atribuído ao derramamento de zinco por uma indústria de Belo Horizonte. "Boa parte do esgoto doméstico e industrial da capital mineira deságua, pelo rio das Velhas, no São Francisco", explica a ambientalista Margi Moss, que tem feito com o marido, Gérard, uma expedição para analisar a qualidade da água de rios brasileiros com base em amostras coletadas pelo avião anfíbio Talha-Mar. A constatação inicial é de um "avançado grau de degradação" em parte da bacia do São Francisco. Na viagem de outro ecologista, Eduardo Pereira de Carvalho, em dezembro de 2005, a bordo de uma inusitada embarcação feita com 2 040 garrafas pet, pescadores foram flagrados pescando em pleno período proibido da piracema.
Das soluções previstas pelo projeto de revitalização, nenhuma interessa tanto a Barra quanto a recuperação da hidrovia do São Francisco. A cidade enriqueceu no passado por ser um importante entreposto da navegação pelo rio, que começou na metade do século 19 - foi quando o inglês sir Richard Francis Burton chegou a explorar o Velho Chico. O trecho de 1,3 mil quilômetros entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) ficaria famoso pelas célebres "gaiolas", barcos de passageiros a vapor que tinham carrancas na proa. Ainda na década de 1980 os últimos barcos encerraram suas viagens pela rota, em função principalmente do assoreamento, que deixou o leito raso. Barra viu-se isolada. As estradas asfaltadas passavam longe e o dinheiro se esvaiu. Só quando o asfalto chegou, em 1997, é que a economia local começou a sair do marasmo.
"Triste é constatar, depois de peregrinar ao longo do rio inteiro, como as águas chegam fracas ao encontro com o Atlântico", atesta frei Luiz, que durante um ano, entre 4 de outubro de 1992 e 4 de outubro de 1993, caminhou - "cerca de mil quilômetros", estima - e seguiu de carro ou barco desde a nascente até a foz, na companhia de três fiéis. A data marcava o aniversário da morte de São Francisco de Assis, o italiano de posses que abriu mão de seus bens para se dedicar aos pobres. "O Velho Chico também nasce rico nas serras de Minas e se desvia para salvar o Nordeste pobre", compara o franciscano, ele próprio um paulista de origem abastada que há 32 anos dedica seus dias à gente simples de Barra. As histórias do rio, do santo, da cidade e do religioso estão ligadas por outra sentença do destino: o 4 de outubro, quando o padroeiro de Barra é louvado com uma procissão de barcos, é também o dia em que nasceu frei Luiz Cappio.
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