O petróleo polui o sul da Nigéria. Vaza dos oleodutos, sujando o solo e a água. Mancha as mãos de políticos que se apropriam de seus lucros. Desvia as ambições dos jovens que fazem de tudo para conseguir parte da riqueza - sabotam oleodutos, seqüestram estrangeiros.
A Nigéria tinha tudo para ser um exemplo de desenvolvimento sustentado: uma nação miserável da África que, de repente, se viu abençoada com uma imensa riqueza. As visões de prosperidade jorraram com tanto ímpeto quanto o petróleo que aflorou no solo pantanoso do delta do rio Níger em 1956. Desde então só aumentou a demanda mundial pelo tipo de petróleo cru dessa região, um líquido "doce" e com baixo teor de enxofre conhecido como "Bonny Light", facilmente transformado em gasolina e óleo diesel. Em meados da década de 1970, a Nigéria já fazia parte da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), e o orçamento nacional estava baseado na entrada abundante de petrodólares.
Tudo então parecia possível - mas aí as coisas começeram a desandar.
As manchas de favelas, adensadas e repletas de lixo, estendem-se por quilômetros. A fumarada negra de um abatedouro a céu aberto avança sobre o teto dos barracos. Bandos violentos aterrorizam as escolas. Pedintes e mendigos enxameiam ao redor dos carros que fazem fila para abastecer nos postos de gasolina. Esta é a cidade de Port Harcourt, o centro petrolífero da Nigéria, capital do estado de Rivers, bem no meio de reservas petrolíferas maiores que as dos Estados Unidos e as do México somadas. Port Harcourt deveria ser reluzente; em vez disso, está apodrecendo.
Fora da cidade, no labirinto de córregos, rios e canais de oleodutos que cruzam o delta, há um mundo fantasmagórico. Vilarejos agarram-se à beira dos rios, pouco mais que punhados de choças de pau-a-pique e barracos enferrujados. Bandos de crianças esfomeadas e seminuas e de adultos ociosos e de cara amarrada vagueiam pelos caminhos de terra. Em que século eles vivem? Ali não há eletricidade, nem água encanada, nem remédios nem escolas. As redes de pesca estão ressecadas; as canoas apodrecem sem uso nas margens lamacentas. Décadas de vazamentos de petróleo, de chuva ácida ocasionada pela queima de gás na atmosfera e de destruição do pântano para a instalação de oleodutos acabaram com todas as tradicionais áreas de pesca.
A Nigéria foi derrotada por aquilo mesmo que parecia ser o seu passaporte para o mundo desenvolvido - o petróleo, responsável por 95% das exportações do país e 80% dos recursos arrecadados pelo Estado. Em 1960, produtos agrícolas, como o óleo de palmeira e o cacau, constituíam quase todas as exportações. Hoje, mal constam da pauta, e a nação mais populosa da África, com 130 milhões de habitantes, deixou de ser auto-suficiente: importa mais alimentos do que produz. Embora rico em petróleo, o país tem capacidade de refino ínfima, e precisa importar quase todo o combustível - os postos de gasolina, com freqüência, são obrigados a fechar por falta do que vender. De acordo com um relatório recente das Nações Unidas, em termos de qualidade de vida a Nigéria está atrás de todas as outras nações petroleiras, desde a Líbia até a Indonésia. Sua renda anual per capita, de 1 400 dólares, é menor que a do Senegal, país que exporta peixes e castanhas. O Banco Mundial classifica a Nigéria como um "Estado precário", ameaçado de conflitos armados, epidemias e colapso da governabilidade.
O sentimento de crise constante agravou-se ainda mais no ano passado, quando um grupo de rebeldes encapuzados, atuando sob o nome de Movimento para a Emancipação do Delta do Níger (Mend, na sigla em inglês), intensificou seus ataques contra plataformas de extração e estações de bombeamento, a maioria das quais operada pela Shell Nigeria. Os militantes do Mend e de outros grupos assassinaram soldados e guardas, seqüestraram trabalhadores estrangeiros, detonaram carros-bomba em outra cidade do delta, Warri, em protesto contra a visita de executivos do setor petroleiro chinês, e, para demonstrar sua capacidade, tomaram uma plataforma marítima de extração a 65 quilômetros da costa do golfo da Guiné - os ataques interromperam o fluxo diário de mais de 500 mil barris de petróleo.
De nação potencialmente exemplar, a Nigéria virou um país dependente dos recursos do petróleo, com pessoas cada vez mais dispostas a recorrer à corrupção, à sabotagem e ao assassinato para ter acesso a essa riqueza. Em tudo isso, a ironia mais cruel é que meio século de exploração de petróleo não contribuiu em nada para melhorar a vida de seus habitantes. Pelo contrário: eles agora estão mais pobres e mais desesperados.
Todos os dias, na ilha Bonny, navios-tanque transoceânicos entram um atrás do outro no canal Cawthorne, como imensos carros alegóricos. Eles estão na fila para receber cada um cerca de 1 milhão de barris de petróleo em um terminal de exportação, nos arredores. Essa ilha longilínea, de 26 quilômetros de extensão, vem servindo de ponto de reunião de navios desde o século 16, quando começou o tráfico de escravos da África Ocidental para o Novo Mundo. Por trás da cacofonia atual - mototáxis, gritos de pregadores evangélicos nas barracas da feira, o baticum de percussão e guitarras nos aparelhos de som de lojas -, ainda ecoam a fúria e o lamento pela incessante tragédia da exploração.
"Não é justo", murmura Felix James Harry, no vilarejo de Finima, na extremidade ocidental da ilha, perto de um complexo de processamento de gás e petróleo. Com 30 anos, pai de dois filhos, Harry deveria estar, nessa tarde, em sua canoa, lançando a rede para pescar lagostins e sardinhas. Em vez disso, está à toa, em um sufocante salão de concreto, com meia dúzia de outros pescadores - nenhum deles tem muito o que fazer.
Antes, a comunidade pesqueira de que fazem parte ficava no outro lado da pequena baía, onde agora se erguem tanques de armazenamento tão altos quanto catedrais e onde a superestrutura de uma unidade de liqüefação de gás natural eleva-se bem acima das árvores. A mudança do vilarejo no início da década de 1990 desestabilizou a economia tradicional. "Não conseguimos mais sustentar nossas famílias", diz Harry.
As casas na nova aldeia foram erguidas bem próximas umas das outras, sobrando pouco espaço para hortas e jardins. As janelas se abrem para a parede do vizinho. É nesse cenário claustrofóbico que os homens conversam sobre a natureza. "A floresta onde construíram a usina de gás nos protegia do vento leste", conta Solomon David, o líder da comunidade. "Agora a chuva e o vento acabam com nossos telhados de sapé em apenas três meses. Antes eles duravam mais de seis meses." Outro pescador menciona que as instalações industriais e o aumento do trafégo de navios modificaram o padrão das ondas no local, forçando os peixes a buscar águas mais profundas. "Para chegarmos a esses lugares, só com um barco a motor de 55 cavalos." Algo que ninguém ali tem condições de comprar.
Sem a pesca, resta aos jovens do vilarejo a esperança de trabalho nas instalações petrolíferas. As chances são raras. "O pessoal de fora ocupa todas as vagas", diz Harry, aludindo aos membros dos principais grupos étnicos da Nigéria - ibos, iorubas, hauçás e fulanis -, que formam a elite política e econômica do país. "Aqui há alguns com diploma, mas nem eles conseguem emprego."
Para Isaac Asume Osuoka, diretor da organização Social Action Nigeria, há má vontade em relação aos moradores do delta porque estes são irrelevantes em termos econômicos. "Com tanto dinheiro do petróleo, o Estado não depende de impostos. Em vez de serem recurso valioso, as pessoas tornaram-se obstáculo. Não há incentivos para que o governo construa escolas ou hospitais", afirma Osuoka sem hesitar. "Antes do petróleo, a Nigéria era um lugar muito melhor."
Uma condenação tão inflexível certamente provocaria consternação no governo e nas companhias petrolíferas. Todavia, foi em vão que fiz reiterados esforços para marcar entrevistas com as autoridades - diretores de empresas de petróleo, o governador do estado de Rivers, o comandante do braço militar responsável pela segurança no delta. A Shell e a Total haviam acenado com a possibilidade de uma visita a suas instalações, mas, logo depois de minha chegada, uma onda de seqüestros de estrangeiros, sobretudo ao redor de Port Harcourt, levou as multinacionais a restringir a movimentação de seu pessoal.
No salão comunal de Finima, os homens começam a ficar inquietos e, um após o outro, saem para o crepúsculo. Antes de partir, Felix Harry afirma que a comunidade vai sobreviver porque tem fé em Deus. Tal crença deve ser bem forte na ilha Bonny, a julgar pela quantidade de cartazes anunciando encontros e cultos evangélicos. Uma das igrejas propunha o método Raao: Reze até Algo Ocorrer. O cristianismo encontrou um solo fértil no delta desde que missionários protestantes ali desembarcaram em meados do século 19, e hoje é a religião predominante.
Harry recita o salmo 91, exaltando Deus com voz forte: "Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza". Saímos juntos. Lá fora, na praia, estão os barcos de pesca da aldeia, várias dezenas deles. Só um milagre vai fazer com que retornem ao mar.
Em todo o delta, a esperança é que alguém se dê conta dos problemas que afligem a região. Após o consulado americano em Lagos ter alertado sobre um possível ataque rebelde contra a gigantesca instalação de liqüefação de gás natural na ilha Bonny, Estados Unidos e Inglaterra insistiram para que haja maior segurança militar na região. E os acionistas das companhias petrolíferas começam a inquietar-se: afinal, por que a situação chegou a tal ponto? Quem é o responsável por isso? As respostas são tão complicadas e obscuras quanto os canais de água no delta.
Quando tudo começou, com a descoberta de petróleo no vilarejo de Oloibiri, situado 80 quilômetros a oeste de Port Harcourt, a Nigéria ainda era uma colônia britânica. Com a independência, em 1960, poucos observadores imaginavam que o novo país acabaria se tornando um dos gigantes do petróleo. Nas décadas seguintes, contudo, o setor petroleiro, liderado por cinco multinacionais - Royal Dutch Shell, Total, Agip italiana e as americanas ExxonMobil e Chevron -, transformou um pantanal remoto e quase inacessível em uma espécie de selva industrial. O resultado: mais de 7 mil quilômetros de oleodutos, 159 campos petrolíferos e 275 estações de bombeamento, com suas torres de queima de gás visíveis dia e noite a quilômetros de distância.
É inegável que se trata de uma façanha tecnológica a construção dessa infra-estrutura para extração de petróleo em uma floresta equatorial semi-submersa. O intenso calor, a mata quase impenetrável, os enxames de insetos e as chuvas torrenciais afetam as operações até hoje. No entanto, o controle desse ambiente inóspito revelou-se bem mais simples que o contato com a paisagem social e cultural. As petroleiras tiveram de instalar-se em uma região dilacerada em rivalidades étnicas. Mais de duas dúzias de grupos étnicos vivem no delta, entre os quais os ijaws (o maior), igbos, itsekiris, ogonis, isokos e urhobos. Esses grupos têm uma longa história de luta pelos despojos da região, desde escravos até óleo de palmeira - e, agora, petróleo cru. As companhias também foram aos poucos perturbando um ecossistema frágil que sustentava a pesca e a agricultura. A construção de oleodutos e a abertura de estradas desorganizaram áreas de reprodução e alteraram inúmeros cursos d'água, colocando em risco a sobrevivência de vilarejos.
Relatórios recentes do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e do International Crisis Group apontam algumas das estratégias prejudiciais adotadas: o uso de dinheiro para cooptar líderes locais e obter direitos de perfuração; a abertura de estradas ou canais sem a realização de estudos de impacto ambiental; o bloqueio durante anos, no sistema judiciário, dos casos de indenização por prejuízo; o uso de forças de segurança que reprimem com violência qualquer protesto; o reparo de vazamentos em oleodutos sem a limpeza adequada da área circundante. "Já se passaram 50 anos e as companhias petrolíferas ainda estão buscando uma maneira de conviver com as comunidades", comenta incrédulo o consultor de riscos Antony Goldman. O delta está repleto de projetos fracassados concebidos por empresas e órgãos públicos - reservatórios de água desprovidos de bombas, postos de saúde sem remédios, escolas sem professores ou livros, tanques de piscicultura sem peixes.
"As companhias petrolíferas jamais procuram os moradores", comenta Michael Watts, diretor do Programa de Estudos Africanos da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Limitam-se a dar dinheiro aos chefes, com resultados pífios."
No verão passado, os instáveis preços do petróleo alcançaram os 78 dólares por barril, em parte devido ao ataque contra uma estação de bombeamento da Shell. A elevação dos preços mais que compensou os decréscimos na produção ocasionados pela crescente instabilidade, contribuindo para que a Shell e outras multinacionais acumulassem em 2006 lucros nunca antes registrados. Enquanto isso, continuam a ser abertos mais campos de petróleo, muitos deles no mar, onde a infra-estrutura, ainda que bem mais dispendiosa que em terra firme, também é mais inacessível à sabotagem e aos roubos. Os campos em águas profundas estão atraindo novos e agressivos investidores. Empresas da China, Índia e Coréia do Sul - países cujo crescimento requer cada vez mais energia - começaram a arrematar em leilões blocos de áreas para exploração de petróleo ao largo da costa. "A maioria das empresas ocidentais na Nigéria vai enfrentar competição acirrada, sobretudo por parte da China", diz Antony Goldman. Isso porque os chineses, ao comprar petróleo, também se comprometem a financiar grandes projetos de infra-estrutura, como a recuperação de ferrovias.
O maior e mais novo empreendimento no delta está tomando forma à margem do rio Nun, um afluente do Níger. Sob o controle da Shell, o Projeto Integrado de Petróleo e Gás de Gbaran, cuja inauguração está prevista para 2008, irá abranger 15 novos campos de petróleo e gás, mais de 300 quilômetros de oleodutos e uma enorme usina de liqüefação. Novas estradas estão sendo abertas no meio na floresta. Montanhas de compridos e horrendos tubos negros aguardam o momento em que serão enterradas. Junto à margem do rio Nun, soldados nigerianos protegem-se atrás de uma barreira de sacos de areia, uma metralhadora calibre 60 apontada para a estrada, enquanto vigiam a entrada do canteiro de obras da usina de gás. Guindastes e tratores arrastam-se por uma área desmatada grande o suficiente para abrigar dois shopping centers. De um avião, a impressão que se tem é de um enorme pedaço de pele removido do rosto da floresta.
Os militantes dos direitos humanos estão pressionando a Shell para que aprenda com os erros passados e trate esse projeto, que irá afetar a vida de 90 vilarejos, como uma oportunidade de finalmente melhorar seu relacionamento com as comunidades. Michael Watts assessora as ONGs sobre a melhor maneira de conscientizar a população local quanto a seus direitos. "Se a Shell insistir em proceder como sempre fez, será um desastre de relações públicas", diz Watts. "As pessoas costumam comentar: 'Essas companhias estão lucrando bilhões com o petróleo que tiram de nossas terras - o mínimo que podiam fazer é assumir suas responsabilidades éticas e sociais'."
Nesse sentido, serve de alerta a situação da pequena Oloibiri, cuja população caiu de 10 mil para menos de mil moradores nos últimos 30 anos. Ali, agora, um único caminho de terra passa por entre as casas precárias, algumas com telhado de sapé, outras cobertas com placas de metal corroído. Dentro do único lugar recém-pintado, uma casa amarelo-limão de dois andares, o chefe Osobere Inengite, da etnia ijaw, pede desculpas pela aparência do lugar: "Oloibiri costuma ser comparada ao Texas", comenta ele. "Mas eu pergunto: em 50 anos os texanos experimentaram um segundo de escuridão? Aqui não tem luz, não tem água, não tem comida, não tem trabalho." E suspira: "Se nunca tivéssemos encontrado petróleo, estaríamos em situação bem melhor".
Afinal, para onde vai toda a riqueza proporcionada pelo petróleo? Essa é uma pergunta que ressoa em todos os vilarejos, aldeias e cidades do delta do Níger. E a culpa já não recai apenas nas companhias petrolíferas mas também em um alvo maior e mais esquivo: o governo da Nigéria. Desde a nacionalização do setor petrolífero em 1971, o governo passou a controlar todos os recursos gerados pela atividade. Em esquema de joint venture, o Estado, representado pela Nigerian National Petroleum Corporation, é dono entre 55% e 60% de todas as operações multinacionais de extração de petróleo no território nacional. E o total de recursos gerados desse acordo saltou, em dólares desinflacionados, de 250 milhões anuais para mais de 60 bilhões de dólares em 2005. Durante esse período, mesmo com o regime deixando de ser ditadura militar para se tornar democrático, com as eleições de 1999, uma coisa não mudou em nada: a corrupção. Um diplomata ocidental, que pede para não ser identificado, é ainda mais direto, referindo-se ao "saque institucionalizado à riqueza nacional". O montante desviado é simplesmente assombroso: segundo estimativa do responsável pelo órgão anticorrupção nigeriano, em 2003, de 60% a 70% dos recursos advindos do petróleo, ou seja, mais de 10 bilhões de dólares, foram roubados ou desperdiçados.
No papel, há um mecanismo razoavelmente justo de distribuição dos petrodólares. O governo federal fica com cerca de metade e transfere o resto, todo mês, aos 36 governos estaduais, cada qual com percentual próprio. Os principais estados produtores - Rivers, Delta, Bayelsa e Akwa Ibom - recebem mais. Durante o mês em que percorri o delta do Níger, esses quatro estados dividiram entre si mais de 650 milhões de dólares.
O problema é que todo esse dinheiro jamais chega à população.
Artigos de jornais e processos jurídicos documentam os espetaculares desvios de recursos por militares e autoridades civis - tal como o ex-governador Diepreye Alamieyeseigha, hoje na prisão - que transferem para contas no exterior centenas de milhões de dólares, com os quais adquirem mansões nos Estados Unidos e matriculam os filhos nas mais prestigiosas escolas particulares de Londres. Para os 30 milhões de moradores da região do delta - a maioria sobrevive com menos de 1 dólar por dia -, a consciência de que nada disso reverte em seu benefício acabou reforçando o sentido de insurreição.
Isaac Osuoka lembra-se da primeira vez que viu peixe congelado. No fim da década de 1970, ele tinha 5 anos. Um vendedor ambulante causou comoção ao entrar ao vilarejo de Oeliabi (hoje Akinima), onde vivia Osuoka, com uma caixa do que chamava de "peixe de gelo". "Jamais havíamos comido peixe trazido de fora", conta Osuoka, que hoje mora em Port Harcourt. "Não tínhamos a menor idéia do que era um peixe congelado. Correram até rumores de que esses peixes eram mantidos em um necrotério."
O peixe congelado foi o primeiro sinal das mudanças que iriam traumatizar a comunidade onde vivia Osuoka. "Ainda menino, eu saía pelos rios ou pântanos mais afastados com uma vara e uma rede e voltava com peixe suficiente para alimentar toda a minha família", recorda-se. "Muitas vezes ainda sobrava um pouco para vender, e com esses trocados íamos para a escola." Essa situação de abundância não resistiria à descoberta do petróleo. "A intensidade e a rapidez da degradação", alerta um relatório da ONU, "estão provocando no delta um desastre ecológico."
Em 1996, Osuoka ajudou a fundar a Environmental Rights Action, uma organização que incentiva as comunidades a defender seus recursos e a conhecer seus direitos de modo a não terem o mesmo destino de Oeliabi. "O que constatamos é que os danos ambientais muitas vezes ocorrem silenciosamente, ou seja, seus efeitos só se tornam visíveis anos depois", analisa Osuoka. "Hoje não há ninguém em minha comunidade que poderia ser chamado de pescador. Dependemos totalmente do pescado congelado." Nas barracas da feira, uma posta congelada de pescada ou cavala, quase sempre importada, custa quase 1 dólar, fora do alcance da maioria dos moradores.
Os melhores estudos ambientais a respeito do delta foram realizados há pelo menos 30 anos, segundo o pesquisador nigeriano Jimmy Adegoke, da Universidade de Missouri. A fim de sanar a escassez de dados, ele e seus colegas cientistas realizaram um levantamento do delta do Níger com a ajuda de imagens captadas por satélites. Descobriram que, entre 1986 e 2003, mais de 20 mil hectares de pântano desapareceram no litoral, em grande parte devido a desmatamentos e abertura de canais para a exploração de petróleo e gás.
Há anos as companhias petrolíferas atuam no delta sem quase nenhuma supervisão ambiental. Até 1988 nem sequer havia um órgão federal que cuidasse do assunto, e os estudos de impacto ambiental só se tornaram obrigatórios em 1992. O pouco de pressão hoje exercido pelo governo está voltado para a interrupção na queima de gás. No delta, os campos de petróleo contêm enorme quantidade de gás natural que as companhias preferem queimar, em vez de armazenar ou reinjetar nos poços, medidas mais dispendiosas. Em centenas de pontos a céu aberto, o gás vem sendo queimado ininterruptamente há décadas, liberando outros gases associados ao efeito estufa e provocando chuvas ácidas. As comunidades queixam-se de tetos corroídos, safras perdidas e doenças respiratórias. Depois de decidir pela primeira vez que as companhias teriam de interromper a queima do gás em 1984, até hoje o governo vem adiando o prazo final para isso. A Shell, principal transgressora, anunciou que, apesar de avanços consideráveis, não conseguirá deixar de queimar o gás natural até 2008, a última data estabelecida pelo governo.
Em terra firme, igualmente nocivos são os vazamentos de petróleo, que poluem os lençóis freáticos e arruinam as áreas de cultivo. O governo registrou 6 817 casos de vazamento entre 1976 e 2001 - praticamente um por dia durante 25 anos -, mas os analistas desconfiam de que o número correto seja dez vezes maior. Equipamentos velhos e malcuidados são a principal causa dos vazamentos, mas as empresas petrolíferas sempre jogam a culpa nas sabotagens e nos furtos, lançando a suspeita sobre membros insatisfeitos das comunidades, os quais supostamente provocam os vazamentos para depois pedir indenizações.
O poço 13 do campo de Yorla, da Shell, estava vazando havia cinco dias quando lá cheguei. Os moradores de Kpean, um vilarejo ogoni próximo, estavam reunidos em torno de uma "árvore de natal", como é chamado o conjunto de válvulas que controla a pressão e a vazão de um poço, medindo 1,5 metro de altura, no meio da relva alta. Nuvens de fumaça escapavam da estrutura metálica, de onde o petróleo escorria e formava uma lagoa, que crescia a cada instante. "Estamos à espera do pessoal da Shell; até agora não veio ninguém", comenta um dos moradores. "Daqui a pouco o óleo vai chegar ao córrego e estragar nossa fonte de água."
A Shell e os ogonis partilham uma história trágica, ainda não digerida. O primeiro protesto em massa na Nigéria contra o setor petroleiro teve origem nas terras dessa etnia, a sudeste de Port Harcourt. Em 1990, o carismático escritor Ken Saro-Wiwa, escandalizado com os vazamentos no território dos ogonis, foi um dos fundadores do Movimento para a Sobrevivência do Povo Ogoni (Mosop, na sigla em inglês). A organização exigia uma parcela justa dos rendimentos do petróleo extraído da região e o fim dos danos ao meio ambiente. Cerca de 250 mil ogonis, quase metade da população local, reuniram-se no início de 1993 em apoio à causa. Nesse mesmo ano, a Shell, alegando motivos de segurança, interrompeu a produção em 96 poços que operava nessa área - embora o petróleo de poços situados fora dali continuasse a ser bombeado por oleodutos que atravessam as terras dos ogonis.
Alarmado com o apoio popular a Saro-Wiwa, o governo militar da Nigéria prendeu o escritor e outros oito militantes do movimento, sob a acusação de instigarem o linchamento de quatro líderes ogonis pertencentes a uma facção rival. Após um processo considerado por muitos uma farsa, e com a suposta cumplicidade da Shell, Saro-Wiwa e seus companheiros foram condenados à morte e enforcados em 1995. Mesmo com os protestos da comunidade internacional, e a abertura de um processo (ainda em andamento) pelo filho de Saro-Wiwa contra a Shell por violação dos direitos humanos, a situação não se alterou. Na verdade, como me disse Isaac Osuoka, "as coisas só pioraram após o assassinato de Ken".
Até hoje, questões de segurança e negociações prolongadas, e muitas vezes hostis, com os líderes comunitários a respeito de indenizações restringem a reação da Shell aos vazamentos. Quando soube que o vazamento no poço 13 havia se tornado um incêndio, voltei a Kpean. Uma nuvem de fumaça negra cobria o céu acima das palmeiras. Dessa vez não pude chegar perto do poço - um grupo de jovens ogonis furiosos bloqueou a passagem de meu carro.
"Vá embora daqui, branco! Você trabalha para a Shell!", gritou um deles, ameaçador.
"Quer ver o que está acontecendo? Vai ter de nos pagar 100 000 nairas", berrou outro. Ele queria o equivalente a 800 dólares.
Alguns dias depois, pedi a Patrick Naagbanton, um jornalista ogoni que protestara ao lado de Saro-Wiwa, que convencesse o chefe do vilarejo a nos deixar passar. Naagbanton tomou a dianteira, abrindo caminho entre a multidão até o poço. Uma bola de fogo emergia do chão; as chamas rugiam. No meio desse inferno, a árvore de natal de ferro estava derretendo como uma efígie lançada em uma pira funerária. Letam Nwinek, um dos moradores, nos puxou para longe do calor. "Nosso temor é que, se o fogo entrar no oleoduto, a comunidade toda vá pelos ares", comenta Nwinek. "O pessoal da Shell diz que estão se preparando, que precisam de mais espuma e equipamentos especiais agora que o fogo se espalhou tanto."
De repente a multidão começou a dispersar. Um sujeito, vestido formalmente, de camisa rosa e boina negra, se aproxima de nós. Ele não perde tempo: "É melhor vocês partirem. Agora!"
Eu fico sabendo que o homem que nos expulsava era Marvin Yobana, o presidente do Conselho da Juventude Ogoni. Enquanto falava, cinco de seus correligionários nos cercaram, com ar de que não estavam para brincadeira.
"Yobana é um exemplo dos atuais líderes ogonis", diz Naagbanton enquanto nos afastamos daquele inferno. "Não passa de um bandido. Acho que está negociando com a Shell um contrato polpudo para a limpeza do local e por isso não quer jornalistas xeretando por aqui." Lançando um derradeiro olhar ao fogaréu, Naagbanton comenta com amargura: "Ele é mais um predador e parasita que só está interessado em conseguir uma parte do dinheiro do petróleo".
O poço 13 ainda queimaria durante dois meses antes que uma equipe da Shell se deslocasse até lá para extinguir o fogo.
"Há alguém prestando atenção?", perguntou Ken Saro-Wiwa na última coluna que escreveu para os jornais. "É preciso fazer com que os moradores ganhem algo com os lucros da venda do petróleo", escreveu. "Só assim será possível evitar que o delta seja devastado por um cataclismo."
Bem, o cataclismo já começou. Enquanto eu escrevia esta reportagem, 70 militantes atacaram um comboio da Shell no canal Cawthorne, tomando 25 trabalhadores como reféns. Os rebeldes também mataram nove soldados nigerianos em uma troca de tiros perto da ilha Brass, onde há um enorme e vulnerável terminal de exportação. Ao mesmo tempo, a leste de Port Harcourt, homens armados invadiram um complexo residencial da ExxonMobil e seqüestraram quatro trabalhadores escoceses, exigindo um resgate de 10 milhões de dólares de cada um deles.
Vêm aumentando a freqüência e a gravidade dos ataques no delta, promovidos por grupos de jovens que exigem acesso à riqueza gerada pelo petróleo. Esse recrudescimento da militância "é emblemático de uma frustração juvenil que se estende pelo continente", comenta Michael Watts, da Universidade da Califórnia. "Em toda a África há uma quantidade enorme de jovens excluídos, politicamente indecisos, que acreditaram nas promessas implícitas na independência e democratização de seus países. Mas tais esperanças foram esmagadas em quase todas as partes. Agora os jovens estão irados e receptivos à radicalização, pois nada têm a perder."
No delta do rio Níger, a escalada da violência prejudica a estabilidade econômica do país e sua capacidade de fornecer petróleo aos países ocidentais. A produção das novas plataformas offshore está substituindo parte do petróleo perdido com atos de sabotagem, mas rebeldes identificados com o Movimento para a Emancipação do Delta do Níger já ameaçaram interromper toda a exportação de petróleo. No mesmo dia em que o consulado americano alertou sobre a possibilidade de um ataque à ilha Bonny, um porta-voz do Mend vangloriava-se aos jornalistas: "Podemos acabar com as exportações de petróleo nigeriano com um único golpe".
Tarde da noite, em um bairro às escuras na região central de Port Harcourt (a cidade sofria um de seus costumeiros apagões), um jovem radical explica o motivo de sua fúria. "A Nigéria cometeu o seu maior erro ao tirar a vida de Ken Saro-Wiwa. Isso foi imperdoável. Diante dessa reação brutal do Estado nigeriano, o único pensamento foi: se não pegarmos em armas, vamos acabar mortos. Violência gera violência. Quando não há mais esperança, a pessoa fica devastada e pensa: 'Só me resta lutar ou morrer'."
Para esse jovem nigeriano, que dá aulas na universidade, não há mais o que discutir. "Quando a situação no delta explodir como um novo Oriente Médio, então o mundo vai se mexer."
Em outra noite, também em Port Harcourt, ocorreu um tiroteio bem ao lado do lugar onde eu estava hospedado. Rajadas de fuzis AK-47, entremeadas ao ruído surdo de tiros de escopeta, me levaram a erguer apressadamente uma barricada na minha porta. Homens armados seqüestraram quatro trabalhadores estrangeiros que estavam em um clube noturno próximo, o Goodfellas. (Foi esse incidente que levou as companhias petrolíferas a cancelar minhas visitas a suas instalações.) Um holandês, que foi contratado pela Shell e ganha 80 000 dólares por ano para supervisionar a construção de um oleoduto, contou-me que só viaja acompanhado de escolta armada. "Não dá para esquecer de que tem gente por aí a fim de acabar com você", disse.
A cada ataque dos rebeldes, os militares nigerianos reagem com violência equivalente ou ainda maior. Certa noite, um bando de seqüestradores, vestindo uniformes militares de combate, chegou de barco ao bairro ribeirinho de Aker Base, na periferia de Port Harcourt, invadiu um bar e capturou um italiano contratado pela Saipem, uma empresa que presta serviços às petroleiras. Durante o ataque, um soldado foi morto. Horas depois, tropas do Exército invadiram a favela e, sem hesitar, queimaram tudo, deixando em pé apenas uma agência bancária. Dias depois, os atônitos moradores de Aker Base vagavam como fantasmas pelas ruínas fumegantes. Cerca de 3 mil pessoas ficaram desabrigadas.
O italiano foi libertado cinco dias depois da destruição de Aker Base. Naquele mês, 16 estrangeiros foram seqüestrados; todos foram soltos, mas, segundo comentários, só depois de terem sido pagos resgates vultosos.
Ninguém sabe com certeza quantas pessoas no delta pegaram em armas para lutar por seus direitos. As estimativas variam de algumas centenas a alguns milhares. Mas não há dúvida de que, toda vez que os militares reagem de maneira devastadora, esse número cresce.
Os rebeldes mostram-se confiantes e destemidos: cerca de uma centena de militantes ou simpatizantes do Mend reuniu-se em um necrotério na cidade de Warri para a cerimônia fúnebre de nove membros mortos em uma emboscada preparada pelo Exército. Em seguida, os líderes do grupo convidaram jornalistas para acompanhar os barcos que levariam os caixões até os vilarejos onde seriam enterrados. Ao longo do percurso, homens agitavam armas desde os ancoradouros, e bandeiras brancas tremulavam em choças. Os homens usavam fitas vermelhas e brancas amarradas nos braços. As fitas e as bandeiras são símbolos de Egbesu, o deus da guerra dos ijaws. Os guerreiros usam os nós como proteção contra a morte, acreditando que, uma vez consagrados a Egbesu, ficam invulneráveis a tudo o que é de metal - como bala ou machado.
Aparentemente, ninguém vislumbra uma solução para o delta do rio Níger. As companhias petrolíferas mantêm um perfil discreto, tentando desesperadamente garantir a segurança de seus empregados e o fluxo de petróleo. Os militares nigerianos, autorizados a reagir à violência com mais violência, ampliaram a vigilância nas ruas e nos rios. Os rebeldes, por sua vez, intensificam uma mortífera ofensiva guerrilheira, na esperança de que o aumento de vítimas e do preço do petróleo obrigue o governo a negociar. As eleições nacionais em abril podem exacerbar ainda mais a violência, sobretudo se os políticos recaírem na velha prática de contratar bandos de jovens para a intimidação dos eleitores.
O otimismo é tão raro quanto o céu azul no escaldante e poluído delta. A dor da traição lança sombras sobre os caminhos no campo e as ruas nas cidades. "Todos estavam convencidos de que seriam beneficiados pela descoberta do ouro negro e passariam a viver tão bem quanto as pessoas de outras partes do mundo", comenta Patrick Amaopusanibo, um empresário aposentado que hoje se dedica à agricultura nas proximidades do vilarejo de Oloama. Ele tinha de gritar para se fazer entender em meio ao que chamam de "ruído negro", o rugido e o cicio de um ponto de queima de gás, próximo à sua plantação de mandioca. "Mas acabamos sem nada. Sinto como se tivesse sido enganado."
O curioso é que, mesmo quando não se tem nada, o petróleo continua a seduzir. É como uma miragem. Na miserável aldeia de pescadores de Oweikorogba, à margem do rio Nun, onde famílias com dez pessoas vivem em choças cobertas com sapé, a esperança materializou-se há um ano sob a forma de técnicos chineses especializados em prospecção de petróleo. Embora tenham partido sem nada encontrar, tudo o que os moradores de Oweikorogba querem é que retornem, confiantes de que acabarão por encontrar o tesouro negro. E, se um forasteiro insistir que o petróleo é uma maldição, essas pessoas vão achar que está louco e dirão: "Nós queremos que achem petróleo aqui, pois assim tudo vai melhorar"
Guia Brasil
Guia de Viagem Itália