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Dharavi: A cidade das sombras de Mumbai No coração de Mumbai - o centro econômico da Índia -, ceramistas cuidam de seus fornos, máquinas de costura zumbem em centenas de oficinas, uma fábrica em um galpão solta fumaça enquanto os operários reciclam latas de óleo usadas. Esta não é exatamente a roda da prosperidade alimentada pelos escritórios corporativos de Mumbai. Em vez disso, representa os sons da vida e da atividade econômica gerada em Dharavi, uma cidade dentro da cidade, a principal favela de Mumbai.

Durante uma sessão de diagramação para a reportagem da National Geographic sobre Dharavi, o fotógrafo Jonas Bendiksen apresenta a vida neste microcosmo apinhado de gente e o debate sobre destruir o que é um calo social para alguns e sinônimo de lar para outros.


Capítulo 1
Uma favela única

Até o ano que vem, mais da metade da população do mundo estará vivendo em áreas urbanas, de modo que a população urbana vai ultrapassar a rural.

Quase ao mesmo tempo em que isto está acontecendo, o número de pessoas vivendo em favelas urbanas está chegando ao um bilhão. Assim, este se torna o hábitat humano que cresce mais rápido no planeta.

Então, estamos examinando essas questões em Dharavi, que é uma favela em Bombaim, na Índia.

Dois terços da população de Bombaim vive em favelas, mas Dharavi é uma espécie de coração da população das favelas.

Dharavi é uma espécie de cidade-sombra de Bombaim, é um microcosmo de Bombaim. Entre os grupos populacionais representados em Bombaim, a metade também tem uma comunidade em Dharavi.

Esta também é uma favela muito particular, há muito trabalho acontecendo ali.

Esta é uma rua típica em uma das áreas principais de Dharavi, chamada área industrial.

Ela está andando sobre um cano de água, um encanamento, que atravessa Dharavi a caminho da parte central de Bombaim.

As favelas são povoadas por pessoas, obviamente, e em Dharavi há muitas delas. Cerca de um milhão, apertadas em cerca de 2,6 quilômetros quadrados. É um lugar muito apertado. A maior parte da população vive em moradias de um cômodo, como esta família.; fica apertado. Esta casa pertence a... hmm, na verdade é alugada, por uma mulher que se chama Nagamma Shilpiri. Ela ganha a vida trabalhando como empregada em meio período, vendendo açúcar de cana nas ruas de Dharavi durante o resto do tempo. E ela mora aqui com seus três filhos, seus pais, sua cunhada viúva e os quatro filhos dela e outros parentes que aparecem. Então, com freqüência há entre 13 e 14 pessoas hospedadas neste lugar, criaram uma espécie de loft de modo que tem dois pisos, mas a área total do lugar deve ser de uns 12 ou 13 metros quadrados.


Capítulo 2
Propriedades imobiliárias de primeira linha

Na verdade, Dharavi se originou como um pequeno vilarejo de pescadores nas proximidades de Bombaim. Na medida em que a cidade foi crescendo, Dharavi se transformou em área de favela, nos limites ao norte da cidade. Mas como o tremendo crescimento populacional de Bombaim nas últimas décadas, que hoje tem mais de 12 milhões de habitantes, Dharavi ficou bem no meio da cidade. É rodeada por todas as outras áreas de Bombaim, e meio que se tornou uma propriedade imobiliária cobiçada.

Esta imagem é de um festival chamado Ganpati, na minha segunda visita. É uma celebração em homenagem ao deus-elefante, Ganesh. E as pessoas dançam e jogam um pó vermelho umas nas outras.

Dharavi pode ser pobre na medida em que há muitos indivíduos pobres morando ali, mas é muito rica na variedade de comunidades que constroem seu lar ali, muito rica nas variedades de trabalho que é feito.

Esta é uma imagem de um dos grupos mais antigos de Dharavi, uma comunidade de ceramistas Gujarati, chamados de Khumbhars. Eles estão lá desde a década de 30 e são considerados os moradores originais de Dharavi. Há tigelas de cerâmica secando nas áreas comuns de todo o bairro. E este menino é de uma família de ceramistas, e está brincando perto das tigelas.


Capítulo 3
Setores inovadores

Bombaim é um ponto de convergência de todo tipo de lixo, de todas as partes de Bombaim; tudo meio que é filtrado em Dharavi: é processado, reciclado, reconstituído, ganha novos usos. Aqui, por exemplo, latas de óleo de cozinha são recicladas. Por toda a Índia, vemos mulheres carregando enormes latas de óleo de cozinha e é aqui que elas vêm parar quando estão vazias. Então são lavadas, marteladas para desamassar e revendidas para os serem alisadas e revendidas aos fabricantes.

Como eu disse, o trabalho é uma das coisas principais em Dharavi e o que faz dali um lugar único. Diferentemente de tantas outras favelas, onde as pessoas moram, mas trabalham principalmente em outros pontos da cidade, em Dharavi, as pessoas trabalham lá mesmo. Há infinitas maneiras de se ganhar dinheiro.

Esta imagem é do que costumava ser um setor econômico importante, de curtição de couro, um setor que agora está ficando obsoleto. É altamente poluente, muitos foram expulsos para fora da cidade, Mas aqui estão os couros secando na área comum, na frente de moradias da favela.

Esse pessoal tem um negócio de pegar pigmento rejeitado de fábricas de tinta. Eles reduzem a coisa a um pó fino, reconstituem o produto e vendem como tinta pirata.

O que surpreende em Dharavi é que todos sabemos que tem gente vivendo com menos de um dólar por dia. Em Dharavi, a gente sempre se surpreende com as maneiras criativas que as pessoas encontram para ganhar aquele dólar.

Aqui está uma pessoa que tem um negócio de lavar roupa em um tanque pequeno e sujo, mas que mesmo assim ganha dinheiro lavando roupa.

Esta é uma cena típica de uma das centenas, se não milhares, de oficinas de costura em Dharavi, da troca constante de turno em uma fábrica de roupas que produz peças de baixa qualidade.

O sujeito está dormindo no chão.


Capítulo 4
Planos questionáveis

No momento, Dharavi enfrenta um governo municipal que tem a intenção de acabar com Dharavi, reformando a área completamente, como eu disse antes, é uma propriedade muito valorizada no coração da cidade. Fica bem ao lado de um enorme complexo financeiro e portanto é um terreno incrivelmente valioso. Então o governo quer realocar os moradores da favela em prédios de apartamento e limpar o terreno. No passado, já houve inúmeras tentativas de urbanizar as favelas.

O negócio é que, no decorrer das últimas décadas, a metade dessas tentativas falhou, e muito.

Este prédio, acredite se quiser, tem seis anos. Eles sempre se transformam nessas monstruosidades de concreto. Esta é a maior fonte de tensão entre a população de Dharavi no momento. As pessoas sabem que tem muita gente de olho em toda a área e que ela vai ser reurbanizada, mas quem isso vai beneficiar? Para que fazer isso, e o que vai virar?

O fato é que muitos dos moradores da favela olham para isto e para aquilo, e não vêem muita melhora. Geralmente têm o mesmo tipo de precariedade em termos de água, eletricidade e encanamento do lugar onde estão, com freqüência há menos espaço nos prédios. Perdem a comunidade, perdem a oficina do segundo andar da casa, sendo que a metade da população de Dharavi vive assim com uma oficina na metade da casa ou ao lado. Ao se mudar para um desses, fica impossível. Então, este é mais ou menos a principal questão que está na cabeça das pessoas em Dharavi, estão olhando exatamente para esta imagem e pensando: Este é o nosso futuro?


Capítulo 5
O lugar do coração

Dharavi é uma comunidade de autodidatas. Mais do que em qualquer outra parte de Bombaim, as pessoas vão subindo na escala do trabalho, de muito, muito baixas para uma levemente mais alta, e fazem isso sozinhas, sem ninguém para ajudar, e têm muito orgulho disso.

Nas casas, mesmo entre as dos mais pobres, têm decoração imaculada; daria para comer no chão se quisesse.

Em termos de lazer, eles também se viram. Isto aqui é o equivalente a um salão de sinuca. Isto é o carom, um jogo mais ou menos deste tamanho que funciona da mesma maneira que a sinuca, mas jogando-se pequenas fichas.

Termino a reportagem com este pequeno momento que encontrei em um beco típico à noite, em uma área residencial de Dharavi.

 


Matéria publicada na revista National Geographic Ed. 86 - 01/05/2007


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