Fosse uma propaganda desses condomínios modernos insustentáveis, daquelas distribuídas à revelia nos semáforos, o lugar seria assim apresentado (sem os exageros habituais do gênero): "casas com varandas espaçosas e vista para o mar. Coqueirais decoram o amplo terreno gramado, o vento é suave e o sol brilha em 360 dias no ano. A segurança é absoluta. E a praia possui exclusivos 500 metros de orla, com dunas baixas e águas verdes".
Interessou? Não está à venda. Pior: o acesso é restrito, assim como são restritas as horas livres para o desfrute à beira-mar. Tome-se como exemplo um dia comum na vida do morador Deniz Sampaio da Rosa. A cada três horas, Sampaio precisa conferir a direção e a intensidade do vento e registrar a temperatura ambiente e da água do mar, umidade, pressão atmosférica, índice pluviométrico. Anota tudo e, de uma pequena estação, repassa os dados para a Marinha e os serviços federais de meteorologia. No intervalo desses boletins, faz manutenção em equipamentos eletrônicos e fiscaliza o tráfego marítimo em um sistema de rastreamento com alcance de até 200 milhas náuticas. Numa manhã ensolarada do último verão, o navio mercante dinamarquês Laura Maersk avançava pelo Atlântico a 51 milhas dali, em direção ao porto de Pecém, no Ceará, com previsão de chegada às 20 horas daquela noite. A boa continuidade da viagem dependia da atenção de Sampaio em terra.
Sampaio trabalha um bocado, seguindo o destino dos dois outros militares responsáveis pela manutenção da bela fazenda de 125 mil metros quadrados onde projeta-se o mais alto farol do Brasil, o do Calcanhar, no município potiguar de Touros. Visitas são raras, apenas aos domingos, quando turistas de passagem são autorizados a entrar. No isolamento, descobre-se logo que as horas de ócio nada mais são que um intervalo para o próximo turno. Outro fator deve ser ponderado ali: a própria atração do lugar. Geralmente montados em paisagens vagas e desabitadas, faróis, por natureza, jamais podem deixar de ser notados. Com seus 65 metros de altura (62 da torre de alvenaria mais 3 da cápsula de vidro e ferro que abriga a lâmpada), o Calcanhar é um sinal luminoso para os viajantes do mar. Mas, em terra, para seus solitários zeladores, é uma espécie de guardião, um vigilante, uma companhia da qual não se pode afastar. Ganha a dimensão de um ser vivo.
"Nas tardes em que o vento bate em 50 nós, é assustador ficar lá em cima", adianta o sargento Washington Luís Castro de Carvalho, que sobe a torre repetidas vezes ao dia para cuidar do sistema óptico da lâmpada do farol. Ele me guia por uma escada em espiral de 298 degraus e uma murada baixa que circunda o fosso interno. Para os amantes da geografia, essa pequena aventura é um evento fora do comum. Em nenhum ponto da costa brasileira pode-se estar tão alto e tão perto do mar ao mesmo tempo. Não se trata de uma paisagem qualquer. O gigante foi fincado na chamada "esquina do Brasil", local exato onde a orla linear que se espraia desde o Rio Grande do Sul dobra subitamente à esquerda, em direção à Amazônia - a partir do farol, nosso litoral deixa de ser leste para ser norte. Do alto, descortina-se a visão íntegra dessa curva peculiar do mapa nacional: rumo ao sul fica a baía de Touros, repleta de barcos de pesca, com as hélices imensas do novo parque eólico de Rio do Fogo ao fundo. Do outro lado está o cabo de São Miguel do Gostoso, varrido por ventos constantes, pontilhado por velas de kitesurfe.
A torre pintada com listras horizontais brancas e negras é mais uma herança dos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial, quando Natal era o principal quartel-general dos países aliados no hemisfério sul. A infra-estrutura da guerra, curiosamente, representou desenvolvimento cultural e econômico para o Rio Grande do Norte. Em 1940, um relatório de um capitão da Marinha a bordo do paquete Santos descrevia Touros como uma "vila insignificante, ponto final de uma estrada vinda de Natal" - hoje, ironia do destino, o município é o início da maior rodovia brasileira, a BR-101, cujos 4 542 quilômetros seguem até o extremo sul do país. Em 1943, ano da construção do edifício, o conflito no Atlântico estava no auge, com submarinos nazistas avançando até perto do Brasil. O Calcanhar servia para orientar tanto o trânsito de embarcações quanto o de aviões. É assim até hoje.
"Ele é o caminho para casa", resume Ozian Baracho da Silva, pescador de lagosta da vizinha vila do Cajueiro, que costuma sair em empreitadas de três dias em mar aberto guiado sempre pela luz do farol, visível para quem está a até 39 milhas náuticas. As cores da estrutura externa servem para a sinalização durante o dia e, na noite, cada farol possui uma linguagem luminosa particular, marcada por cor e período de exposição. No Calcanhar, são três lampejos brancos - o ciclo fecha-se com 0,3 segundo de luz para 9,7 segundos de escuro.
É um sinal que não pode falhar, nunca, e cabe ao faroleiro Washington essa missão. Aos 38 anos, ele é um homem do mar de plantão em terra. Natalense, foi para a escola militar no Rio de Janeiro em 1986. Casou-se e ficou por lá até 2003, quando retornou ao Rio Grande do Norte para passar três anos embarcado no navio balizador da Marinha Comandante Manhães. Trabalhando sempre com sinalização náutica, conheceu todas as ilhas oceânicas brasileiras, do atol das Rocas ao arquipélago de São Pedro e São Paulo. Quando desembarcou, no ano passado, foi escalado para cuidar do Calcanhar. A mulher e os dois filhos optaram por permanecer no Rio, e, sozinho, ele cumpre com estoicismo seu ofício - e encarna então os faroleiros da literatura, como o Will Denton do romance de Júlio Verne O Farol do Fim do Mundo, que defende obstinadamente seu farol contra a ameaça de um bando de piratas. "Vida de um faroleiro é uma odisséia. Sou responsável por homens no mar que nem sabem quem eu sou", diz.
Washington gosta de pescar e às vezes dá uma escapada até o centro de Touros para espairecer. Mas, para o cabo Sampaio e sua mulher, Joana D'Arc Barbosa Patrício, o isolamento no Calcanhar tem sido uma provação. O casal é evangélico praticante, acostumado a uma vida de obras e caridade na cidade onde viviam. Na vila militar, tudo mudou. Distante de seu mundo habitual, ela passa os dias nos afazeres domésticos, e reza muito. Ele trabalha, disciplinado. O sonho imediato é comprar um buggy que lhes permita vencer os 9 quilômetros até Touros, onde poderão freqüentar um templo local. Enquanto isso, Joana D'Arc espera. E resigna-se com a rotina de contemplar o mesmo mar, o mesmo céu, a mesma praia. O paraíso enjoa? "Eu sei que haverá uma resposta. Por isso estou aqui", diz ela.
Eu passei bom tempo rondando a casa, conversando com eles entre rodadas de bolo de fubá e suco de pitanga, tentando entender o elo entre a devoção religiosa e os dias de solidão a dois com vista para o mar. Então, na noite alta em que fui embora, o Calcanhar piscando sob um manto de estrelas, Sampaio, sereno como sempre, presenteou-me com um livro. Na dedicatória escrita por ele estava a simples resposta, sua inteira verdade: "Acesa nas noites, presença concreta nos dias: a luz de Deus é como um farol".
Guia Brasil
Guia de Viagem Itália