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A fotógrafa Lynn Johnson fala sobre os perigos dos laços cada vez mais próximos entre humanos e animais (em inglês)
Em setembro de 1994, uma violenta enfermidade se alastrou entre cavalos de corrida em um subúrbio de Brisbane, na Austrália. Local pacato e tradicional, o bairro de Hendra contava com várias pistas de corrida, cocheiras, bancas que vendiam jornais com dicas de páreos e cafés de esquina freqüentados por todo tipo de gente ligada ao mundo do turfe. A primeira vítima foi uma égua prenhe, que começou a exibir sintomas atípicos em um pasto mais distante e foi levada à cocheira do treinador para receber cuidados, mas seu estado logo piorou. Apesar dos esforços do próprio treinador, do veterinário e de um cavalariço para salvá-la, dois dias depois ela morreu, sem que a causa ficasse clara. O animal fora picado por uma serpente? Havia ingerido alguma erva venenosa entre os arbustos do pasto? Essas hipóteses foram descartadas após duas semanas, quando a maioria dos outros bichos no mesmo estábulo também caiu doente. Estava evidente que não houvera acidentes com cobra ou erva tóxica. O caso se relacionava com alguma moléstia contagiosa.
Os outros cavalos ficaram com febre, insuficiência respiratória, inchaço facial e movimentos inseguros; alguns exibiram uma espuma sanguinolenta nas narinas e na boca. A despeito do trabalho heróico do veterinário, uma dúzia de animais morreu em questão de dias. Além disso, o treinador ficou doente, e o mesmo ocorreu com o cavalariço. Embora atuando em circunstâncias caóticas, o veterinário seguiu todos os procedimentos de segurança e não foi afetado. Depois de dias internado em um hospital, o treinador morreu. Seus rins entraram em colapso, e ele não conseguia respirar. Já Ray Unwin, o cavalariço, resolveu tratar a febre em casa e conseguiu se recuperar. Ele e o veterinário me contaram sua história quando os conheci, em Hendra, no ano passado. Ray Unwin insistiu em dizer que não se sentia mais tão saudável quanto antes do ocorrido.
As análises laboratoriais revelaram que um vírus desconhecido infectara os cavalos e os homens. No início, os técnicos o batizaram de "morbilivírus eqüino", imaginando tratar-se de um vírus bastante próximo do patógeno do sarampo. Mais tarde, quando ficou patente sua singularidade, ele foi rebatizado e recebeu o nome do lugar em que se manifestou: Hendra. O veterinário, Peter Reid, contou-me que "a rapidez com que derrubou os cavalos foi incrível". No auge da crise, bastou um intervalo de 12 horas para que sete animais sucumbissem a um fim horrível ou tivessem de ser abatidos. Um deles morreu se debatendo e tentando respirar com tanto desespero que Reid nem conseguiu aplicar a injeção de misericórdia. "Eu nunca vira algo tão devastador", disse ele.
A identificação do novo vírus foi apenas o primeiro passo para solucionar o mistério de Hendra. Na segunda etapa seria preciso descobrir onde o vírus se escondera até começar a matar cavalos e pessoas. Na terceira etapa, outro grupo de questões teria de ser enfrentado: como o vírus escapou de seu refúgio secreto e por que o fez exatamente naquele momento e naquele local?
Peter Reid levou-me até o lugar em que a primeira égua ficara doente. Um condomínio com casas padronizadas e ruas arrumadas ocupa o local do pasto, e não resta muita coisa da antiga paisagem. No entanto, no final de uma das ruas há uma rotatória, a Calliope Circuit, no meio da qual se vê uma velha e solitária figueira nativa em cuja sombra a égua teria se refugiado contra o intenso sol da região leste da Austrália.
"Essa é a árvore maldita", apontou Reid. Era ali que os morcegos se reuniam, ele queria dizer.
As doenças infecciosas estão por toda parte. Elas são como um cimento que une uma criatura à outra, uma espécie à outra, no interior das complexas estruturas que chamamos de ecossistemas. Esse é um dos processos da vida estudados pelos ecologistas, ao lado da predação, da competição e da fotossíntese. Os predadores são animais relativamente grandes que devoram suas presas de fora para dentro. Os patógenos (agentes causadores de doenças, como os vírus) são criaturas pequenas que devoram suas vítimas de dentro para fora. Embora as doenças infecciosas pareçam pavorosas, em condições normais elas constituem algo tão natural quanto aquilo que os leões fazem com os gnus, as zebras e as gazelas. O problema é que as condições nem sempre são as normais.
Assim como os predadores estão acostumados a atacar determinadas espécies, que formam seus alvos prediletos, o mesmo se dá com os patógenos. E assim como um leão pode, de vez em quando, desviar-se de seu comportamento normal - atacando uma vaca em vez de um gnu -, os patógenos também podem ocasionalmente voltar-se para um novo alvo. Acidentes acontecem. Aberrações ocorrem. Mudam as circunstâncias e, com isso, surgem novas oportunidades e necessidades. Quando um patógeno salta de um animal para uma pessoa e consegue provocar um estrago nela, o resultado é o que se conhece como zoonose.
Essa não é uma palavra familiar para muitas pessoas. Porém, ajuda-nos a esclarecer a realidade biológica por trás das assustadoras manchetes sobre a gripe aviária, a sars e outras novas e horríveis enfermidades, além das ameaças de pandemia que agora pairam sobre o planeta. Ela também diz algo essencial a respeito da origem do vírus HIV. Zoonose é um termo dotado de futuro, destinado a ser bastante empregado neste século.
A febre hemorrágica provocada pelo ebola é uma zoonose. Assim como a peste bubônica. Também a febre amarela, a varíola-dos-macacos, a tuberculose bovina, a doença de Lyme, a febre do Nilo Ocidental, a doença de Marburg e muitas linhagens de gripe. Ainda a raiva, a síndrome pulmonar por hantavírus e uma estranha e nova doença chamada Nipah, que mata porcos e seus criadores na Malásia. Cada uma dessas zoonoses é o resultado da atuação de um patógeno que conseguiu atravessar a fronteira entre os animais e os seres humanos. Essa forma de salto entre espécies é bastante comum: cerca de 60% das doenças infecciosas humanas que conhecemos são partilhadas por bichos e pessoas. Algumas delas - das quais a mais notável é a raiva - são bastante difundidas e notoriamente letais, a despeito dos esforços para combater seus efeitos, de tentativas internacionais coordenadas para erradicá-las ou mantê-las sob controle e de um razoável entendimento científico do modo como atuam. Outras, porém, são doenças novas e inexplicavelmente esporádicas, que causam poucas vítimas (como a Hendra) ou mesmo centenas delas, mas dispersas aqui e ali, e depois desaparecem durante anos.
A varíola, para termos um exemplo contrário, não se trata de uma zoonose. Ela é causada por um vírus que afeta sobretudo o Homo sapiens e, em casos excepcionais, primatas não-humanos - mas não cavalos, ratos ou outras espécies animais. Isso explica por que a campanha global da Organização Mundial de Saúde para erradicar a doença foi considerada bem-sucedida, em 1979. A varíola pôde ser erradicada porque seu vírus, incapaz de sobreviver em quase nenhum outro organismo além do humano, não tinha onde se esconder - ao contrário dos patógenos zoonóticos.
Ainda que estreitamente relacionada com a varíola humana, a varíola-dos-macacos distingue-se dela por dois elementos cruciais - sua propensão a afligir tanto macacos como humanos e a capacidade que seu vírus tem de sobreviver em diversas espécies, algumas das quais ainda não-identificadas. A febre amarela, igualmente infecciosa para macacos e humanos e provocada por um vírus que se esconde em diversas espécies de mosquitos, provavelmente jamais será erradicada. O agente causador da doença de Lyme, um tipo de bactéria, oculta-se eficientemente em um rato silvestre, o Peromyscus leucopus, assim como em outros mamíferos pequenos. Claro que esses patógenos não se ocultam de maneira proposital. Esse comportamento constitui apenas uma estratégia de transmissão indireta ou de sobrevivência sem chamar atenção.
A estratégia de ocultação mais eficaz é permanecer no interior do chamado hospedeiro-reservatório, uma espécie que abriga o patógeno mas não é afetada por ele nem exibe sintomas da doença. Quando uma enfermidade torna a desaparecer entre dois surtos (como ocorreu com a Hendra após a mortandade de 1994), é possível que o patógeno responsável tenha de fato se extinguido - mas é apenas "possível". Ele ainda pode estar latente nas proximidades, oculto no interior de um hospedeiro-reservatório. Em um roedor? Uma ave? Uma borboleta? Talvez um morcego? Permanecer incógnito em um hospedeiro-reservatório provavelmente é a saída mais fácil onde existe grande diversidade biológica e o ecossistema está relativamente preservado. O inverso também vale: quando há desequilíbrio ecológico, as doenças começam a aparecer. É só balançar uma árvore que começam a cair coisas.
Alguns meses após as mortes em Brisbane, um detetive da ciência, o epidemiologista australiano Hume Field, saiu em busca do hospedeiro-reservatório do vírus Hendra. Field é um veterinário que decidiu obter doutorado em epidemiologia veterinária. A busca daquele hospedeiro-reservatório tornou-se o tema de sua tese. Ele começou reunindo amostras do sangue de 16 espécies, todo um zoológico de suspeitos, incluindo marsupiais, aves, roedores, anfíbios e insetos. No laboratório, as amostras não apresentaram nenhum indício do vírus Hendra.
Em seguida, Field extraiu sangue do morcego Pteropus alecto, grande como um corvo e também conhecido como raposa-voadora. Bingo: nesse caso, o laboratório identificou traços moleculares deixados pelo vírus Hendra. Outras amostragens revelaram indícios similares em três espécies de raposas-voadoras, nativas das matas do estado de Queensland (onde fica a cidade de Brisbane) e de outras regiões de floresta da Austrália. Em todos esses morcegos, portanto, Field e seus colaboradores haviam identificado o hospedeiro do Hendra. A detecção de traços moleculares não é algo tão conclusivo quanto a identificação de partículas do próprio vírus, mas em uma fêmea de morcego também foi encontrado esse indício mais forte.
Os exames laboratoriais indicaram que o Hendra era um vírus antigo, tendo provavelmente existido em seu hospedeiro-reservatório durante milênios. A despeito da longevidade, ele jamais - pelo menos de acordo com os registros históricos e a memória humana - havia provocado doenças em pessoas. O que explica seu aparecimento em 1994? Bem, foi um golpe de azar para a égua prenhe e para seus tratadores. Os morcegos vinham comer os figos na árvore isolada, e o pobre animal, em busca de sombra e pasto, deve ter engolido não apenas grama mas também algo que eles haviam deixado cair, como caroços de frutas, fezes, urina, placenta, e vírus.
Porém, deveria existir uma resposta mais abrangente. Por que o Hendra se manifestou só em 1994, e não décadas ou séculos antes? Havia algo estranho. Algum tipo de mudança, ou conjunto de mudanças, teria levado o vírus a se transferir do hospedeiro-reservatório para outras espécies.
O nome que se dá a esse tipo de transferência é transbordamento. Talvez o vírus necessitasse de cavalos (introduzidos na Austrália após a chegada dos colonos europeus), e não de cangurus (que há milênios comem grama sob as figueiras australianas), para ocorrer o transbordamento. Pode ser que a conjunção tão próxima de morcegos, figos, cavalos e humanos jamais tivesse ocorrido. Hoje, Hume Field trabalha como pesquisador em Brisbane. Quando o encontrei em seu escritório, ele tentava entender "o que estaria acontecendo agora que não havia acontecido antes". Parte da resposta é que a destruição das florestas de eucalipto desorganizara os hábitos de alimentação e de descanso de espécies de raposas-voadoras, forçando-as a freqüentar subúrbios arborizados, jardins botânicos e parques urbanos - ou seja, obrigando-as a viver mais perto das pessoas.
No entanto, uma coisa é a proximidade; outra, bem diversa, é o transbordamento do vírus para os cavalos. "Como se deu essa passagem?", perguntou Field em voz alta, ao fim de nossa longa conversa. "A verdade é que ainda não sabemos."
Quase todas as doenças zoonóticas resultam de infecção por um destes seis tipos de patógeno: vírus, bactérias, protozoários, príons, fungos e vermes. A doença da vaca louca é provocada por um príon, molécula de proteína com forma aberrante capaz de desencadear a mesma aberração em outras moléculas. A doença do sono é causada pela infecção por um protozoário que as moscas tsé-tsé fazem circular entre mamíferos selvagens ou domesticados e seres humanos na África subsaariana. O antraz é uma bactéria que pode ficar no solo durante anos e então, quando a terra é revirada pelos cascos do gado, infectar as pessoas. A toxocaríase é uma zoonose de baixa periculosidade causada por vermes nematódeos encontrados no intestino de cães e gatos.
Já os vírus são mais problemáticos. Eles evoluem com rapidez, não reagem a antibióticos, são esquivos e versáteis, podem ocasionar taxas de mortalidade muito altas e possuem uma estrutura extraordinariamente simples, pelo menos em comparação com a de outras criaturas. Hanta, sars, varíola-dos-macacos, raiva, ebola, Nilo Ocidental, Machupo, dengue, febre amarela, Junin, Nipah, Hendra, gripe e aids são doenças causadas por vírus. E a lista completa é bem mais longa. Há um organismo conhecido pelo eloqüente nome de vírus símio espumoso (SFV, simian foamy virus) que infecta macacos e pessoas na Ásia, em locais como templos budistas e hindus, onde ocorre o contato. Alguns dos visitantes a esses lugares são turistas estrangeiros e, ao alimentarem os bichos, ficam expostos ao SFV. "Embora os vírus não tenham como se locomover", diz o virologista Stephen S. Morse, "muitos deles já deram a volta ao mundo." Eles não correm, não andam, não nadam, não se arrastam. Eles são carregados.
Quase na mesma época em que ocorreu a eclosão do Hendra em Brisbane, outro transbordamento foi registrado na África Central. À margem do trecho superior do rio Ivindo, no nordeste do Gabão, junto da fronteira com a República do Congo, fica o vilarejo de Mayibout II. Em fevereiro de 1996, 18 de seus moradores caíram doentes após ingerir carne de chimpanzé. Entre os sintomas apresentados estavam febre, dor de cabeça, vômito, hemorragia nos olhos e na gengiva, soluços e diarréia com sangramento. Todos os doentes foram levados rio abaixo até um hospital, onde quatro morreram logo em seguida. Os corpos foram transladados para Mayibout II e ali enterrados sem nenhuma precaução; uma quinta vítima fugiu do hospital, voltou ao vilarejo e morreu. Casos secundários foram registrados entre pessoas infectadas por amantes ou amigos ou que manusearam os cadáveres. No fim, 31 pessoas foram contaminadas e 21 delas morreram.
Tais fatos e números foram reunidos por uma equipe de pesquisadores gaboneses e franceses que foi a Mayibout II para investigar o surto. O francês Eric M. Leroy integrava a equipe. Ele e seus colegas constataram que se tratava de uma febre hemorrágica e que um chimpanzé estava infectado com o vírus ebola. A investigação também revelou que o chimpanzé não fora abatido pelos caçadores do vilarejo, mas encontrado morto na mata, mordiscado por algum animal.
Desde 1996, outros surtos de ebola foram registrados entre pessoas e grandes primatas (chimpanzés ou gorilas) nos arredores de Mayibout II. Uma das áreas mais afetadas fica à margem do rio Mambili, próxima à fronteira noroeste do Congo - outra zona de floresta densa com diversos vilarejos, um parque nacional e um refúgio de gorilas conhecido como Lossi. Em 2002, no entanto, pesquisadores encontraram carcaças de gorilas com a presença do ebola. Em poucos meses, 91% dos gorilas que vinham sendo estudados (130 de 143 animais) desapareceram, e a maioria deles estava supostamente morta. Após uma projeção feita a partir da confirmação das mortes e das perdas de contato, os pesquisadores publicaram um estudo na revista Science com o título "Surto de ebola mata 5 000 gorilas".
No segundo semestre de 2006, voltei ao rio Mambili acompanhando uma equipe liderada por William B. Karesh, diretor do Programa Veterinário de Campo da Wildlife Conservation Society e autoridade em doenças zoonóticas. O objetivo de Karesh era aplicar tranqüilizantes em uns poucos gorilas sobreviventes, obter amostras de sangue e comprovar se esses animais haviam sido expostos ao ebola. Junto com o experiente mateiro Prosper Balo, mais veterinários e guias, passamos oito dias vasculhando a floresta. Balo já conhecia Lossi. Sob sua orientação, identificamos um bai, uma clareira natural com vegetação abundante, antes muito freqüentada por dezenas de gorilas em busca de alimento e descanso. Karesh já visitara essa área em 2000, antes do ataque do ebola, para colher dados sobre a saúde dos gorilas. "Todos os dias cada bai era visitado por no mínimo um grupo familiar", informou. Aquela viagem havia sido produtiva para ele - a única pessoa que até então conseguira usar dardos tranqüilizantes nos gorilas das planícies. Na jornada de 2006, porém, as coisas foram diferentes. Até onde percebíamos, quase não restavam sobreviventes. Conseguimos avistar apenas dois espécimes. Os outros ou haviam se mudado para locais desconhecidos ou então estavam... mortos? De qualquer modo, algo era inegável: antes havia muitos gorilas, e agora já não se viam tantos deles por ali.
Também parecia que o vírus havia sumido. Sabíamos, entretanto, que ele só estava escondido.
Escondido onde? Durante uma década, a identidade do hospedeiro-reservatório do ebola fora um dos mistérios mais insondáveis no mundo das zoonoses. Diversos pesquisadores se empenharam para achar a resposta. Então, dois anos atrás, Eric Leroy e alguns colegas anunciaram na revista Nature: "Encontramos sinais de infecção assintomática pelo vírus ebola em três espécies de morcegos, indicando que eles podem funcionar como um reservatório para esse vírus letal". O grupo de Leroy não havia capturado nenhum vírus vivo, mas estabeleceu - por meio de resultados positivos de vários tipos de testes moleculares - que o ebola estivera presente em pelo menos alguns dos morcegos examinados.
O próprio Leroy continua atrás de indícios mais conclusivos. "Prosseguimos com a captura de morcegos - na tentativa de identificar o vírus em seus órgãos", ele me disse no final do ano passado, quando o visitei em Franceville, também no Gabão. Todavia, mesmo que o hospedeiro-reservatório fosse determinado com toda a certeza, outras questões permaneceriam obscuras.
Por exemplo, como o ebola sai do reservatório? "Não descobrimos se há transmissão direta dos morcegos para os humanos", disse Leroy. "Sabemos apenas que ocorre transmissão direta de grandes primatas mortos para o homem." E como o vírus conseguiu evoluir a ponto de gerar quatro linhagens distintas? Por que a linhagem ebola-Zaire, encontrada no Gabão e no Congo, é tão letal (cerca de 80% de mortalidade) para as pessoas? Qual é seu ciclo de vida natural? De que modo o vírus afeta o sistema imune do homem? E, afinal, como ele consegue entrar em contato com os seres humanos? O ebola é difícil de ser estudado, explicou Leroy, por causa das características da doença. Ela ocorre raramente, progride com muita rapidez, mata ou deixa de matar em apenas alguns dias, atinge um número relativamente pequeno de pessoas em cada surto - e essa gente em geral vive em áreas remotas no meio da floresta, longe de hospitais de pesquisa ou institutos médicos. Em seguida, a doença se esgota ali mesmo na região ou é interrompida com êxito e volta a desaparecer na floresta, como um grupo de guerrilheiros após um ataque-surpresa. "Não há nada a fazer", declarou Leroy, com a perplexidade de alguém que aprendeu a ser paciente. O que ele queria dizer, na verdade, é que só restava prosseguir com os trabalhos no laboratório, preparar-se para reagir aos surtos quando voltassem a ocorrer. E ninguém pode dizer onde isso vai acontecer. "O vírus parece decidir por si mesmo."
O Hendra e o ebola são parte de uma tendência muito mais ampla: o recente surgimento de novas doenças zoonóticas, diversamente letais e horrendas, das quais uma proporção significativa parece estar associada a morcegos. Outro aspecto desse padrão é a destruição das paisagens selvagens. O vilão seguinte foi o vírus Nipah.
Em setembro de 1998, um vendedor de carne de porco na região peninsular da Malásia foi hospitalizado com uma inflamação cerebral e logo morreu. Na mesma época, alguns trabalhadores de criadouros de suínos apresentaram sintomas idênticos, com febre alta que provocava coma, e vários deles faleceram. Enquanto isso, os porcos dali sofriam com uma enfermidade própria (ou que parecia restrita a eles), que os fazia tossir e espirrar, para então morrer. Essa doença foi considerada uma febre suína clássica. Já os óbitos humanos foram atribuídos à encefalite japonesa. Entretanto, alguns meses depois, os cientistas mostraram que os porcos e as pessoas haviam sido infectados pelo mesmo vírus - um vírus novo que foi isolado pela primeira vez em um paciente do vilarejo de Sungai Nipah. De um porco a outro o vírus era extremamente contagioso, mas isso não ocorria entre pessoas. Ele se dispersou pela Malásia e chegou a Cingapura, levado em carregamentos de porcos vivos, infectando quem entrasse em contato com os animais doentes ou consumisse sua carne. Em sete meses, o surto fez 265 vítimas humanas, das quais 105 fatais, e exigiu a matança de 1,1 milhão de porcos.
O perfil molecular desse novo vírus sugeria parentesco estreito com o Hendra. Aí estava uma pista promissora. Pouco depois, os pesquisadores encontraram o Nipah sobrevivendo em latência em um hospedeiro-reservatório: o Pteropus hypomelanus, outra espécie de raposa-voadora. Eles também notaram que esses morcegos, em conseqüência da redução de seu hábitat, haviam passado a se reunir em pomares próximos às fazendas de criação de porcos.
Em seguida veio a sars. Essa síndrome respiratória teve origem no sudeste da China, no início de 2003, difundindo-se prontamente de uma pessoa a outra, fazendo 774 vítimas fatais em nove países e alarmando o mundo. Uma investigação preliminar identificou como principal suspeito de ser o reservatório da doença a civeta Paguma larvata, mamífero de médio porte cuja carne era vendida em mercados chineses. Isso, porém, não se confirmou: exames posteriores revelaram que a própria espécie de civeta apresentava sintomas de sars. Em seguida, um grupo de cientistas liderado por Wendong Li, da Academia de Ciências da China, anunciou que achara reservatórios com um vírus muito parecido com o que causara o surto de sars: morcegos do gênero Rhinolophus.
A história não termina aí. O recém-identificado vírus ABL (Australian bat lyssavirus), que está estreitamente relacionado à raiva, matou pelo menos duas pessoas que apresentaram sintomas idênticos aos dessa doença após ser mordidas por morcegos. Da mesma família do Hendra, os vírus Menangle e Tioman também são carregados por morcegos e estão sendo cuidadosamente observados pelos cientistas. O próprio vírus da raiva e os similares a ele, encontrados em espécies-reservatórios de morcegos por todo o mundo, provavelmente ainda são os mais letais patógenos virais caso não sejam tratados - com taxa de mortalidade de quase 100% entre os humanos. No segundo semestre de 2006, no norte do Peru, 11 crianças de vilarejos próximos às nascentes do rio Amazonas morreram de raiva contraída depois de ser atacadas por morcegos-vampiros.
A esta altura, a pergunta que se coloca é: afinal de contas, que história é essa de os morcegos estarem presentes em todos os casos relatados?
Foi tal a dúvida que apresentei ao virologista e veterinário Charles Rupprecht, pesquisador da raiva nos Centros para Prevenção e Controle de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos. Rupprecht recitou um conjunto de fatores que fazem dessa ordem de mamíferos, os quirópteros, os candidatos ideais para hospedar uma variedade de vírus perigosos. Alguns morcegos costumam se recolher em enormes colônias, dormindo juntos e amontoados. Eles têm poucos filhotes e cuidam deles com devoção. Esses animais vivem bastante tempo, em termos evolutivos são muito antigos e reúnem uma grande diversidade de espécies. Eles voam e, portanto, se movimentam com facilidade pelo mundo, encontrando locais para viver em quase todos os continentes (com exceção da Antártica). Acrescente-se a isso o fato de que, sendo noturno e voador, é um bicho difícil de ser estudado.
Levei a mesma pergunta ao veterinário Xavier Pourrut, baseado no Gabão. Seu trabalho envolve a captura de amostras de sangue dos morcegos das áreas em que houve surtos de ebola, de modo que Eric Leroy possa analisar o soro em busca de indícios do vírus. Segundo ele, devemos ter em mente que a capacidade de voar proporciona aos morcegos uma enorme área de atuação: horizontalmente na superfície do planeta e verticalmente no interior da floresta. Potencialmente, essa capacidade lhes permite acesso do piso da floresta ao topo das árvores em que se encontram os frutos ou insetos com que se alimentam, o que significa estar em contato com uma quantidade enorme de outros bichos, incluindo roedores, carnívoros, aves, serpentes, chimpanzés, gorilas e humanos.
O contato é crucial. A proximidade entre duas espécies oferece oportunidade para que um patógeno amplie seus horizontes e suas possibilidades. O contato entre humanos e bichos pode ocorrer de várias maneiras: pelo abate de espécies selvagens e pela ingestão de sua carne (como em Mayibout II), pelo cuidado conferido a animais domésticos (foi o que ocorreu em Hendra), por afagos nos bichos de estimação (um exemplo é a varíola-dos-macacos, introduzida no circuito dos pet shops americanos por meio da importação de roedores africanos). E ainda por gestos amigáveis (como no caso do oferecimento de bananas aos macacos nos templos de Bali), pela criação intensiva de animais associada à destruição de hábitats (fato ocorrido nos criatórios de porcos na Malásia) e por qualquer outro tipo de intromissão prejudicial das pessoas em locais ainda selvagens - algo que, todos sabem, acontece sem cessar por todo o planeta. Uma vez ocorridos o contato e o transbordamento do agente patogênico, dois outros fatores contribuem para aumentar a possibilidade de conseqüências cataclísmicas: a mera abundância de humanos no planeta, todos vulneráveis a infecções, e a velocidade com que podem se deslocar de um lugar a outro. Quando uma nova doença devastadora, capaz de se transmitir de uma pessoa a outra por meio de um aperto de mão, um beijo ou um espirro, consegue se estabelecer, ela pode facilmente dar a volta ao globo e matar milhões antes que os pesquisadores ou médicos encontrem uma maneira de mantê-la sob controle.
Entretanto, não são apenas nossa segurança e nossa saúde que importam. Não se deve esquecer que a doença pode seguir em ambas as direções: tanto dos humanos para as outras espécies como destas para as pessoas. O sarampo, a pólio, a sarna, a gripe, a tuberculose e outras afecções humanas são consideradas ameaças para os primatas. Elas são classificadas como antropozoonóticas. Qualquer uma delas poderia ser carregada por um turista, um pesquisador ou um morador local, com impacto potencialmente devastador em populações ínfimas e isoladas de grandes primatas com reservatório genético relativamente pequeno, como os gorilas de Ruanda ou os chimpanzés de Gombe.
Por esse motivo William Karesh e seus colegas da Wildlife Conservation Society atribuíram a seu programa o lema "Um único mundo, uma única saúde". Os princípios orientadores vêm da ecologia, da qual as medicinas humana e veterinária são apenas subdisciplinas. "Não se trata de privilegiar a saúde da fauna selvagem ou a dos seres humanos, ou ainda a dos rebanhos", disse ele. "Na verdade, o que mais vale é garantir, de forma conjunta, a saúde e o equilíbrio dos ecossistemas em todo o planeta."
Após nossa busca infrutífera às margens do rio Mambili, na região noroeste do Congo, Karesh, eu e Prosper Balo, juntamente com os outros membros da equipe, seguimos rio abaixo durante três horas em uma piroga. Depois tomamos um caminho de terra até o vilarejo de Mbomo, no centro de uma área onde o ebola fizera 128 vítimas fatais durante o mesmo surto que se abateu sobre os gorilas de Lassi. Paramos em um pequeno hospital, ao lado do qual havia uma placa em que se lia em letras vermelhas:
Attention ebola ne touchons jamais ne manipulons
jamais les animaux trouves morts en foret.
(Atenção, ebola. Nunca toque ou mexa em animais encontrados mortos na floresta.)
Mbomo era onde vivia Prosper Balo. Ao visitarmos sua casa, conhecemos sua mulher, Estelle, e alguns de seus muitos filhos. Soubemos que a irmã, dois irmãos e outro parente próximo de Estelle morreram de ebola, em 2003, e que a própria Estelle fora isolada pelos moradores do vilarejo por causa de sua associação com a doença. Ninguém se dispunha a vender-lhe comida nem aceitar seu dinheiro. Só lhe restou a opção de buscar refúgio na floresta. Ela teria morrido, contou Balo, se ele não lhe tivesse ensinado a tomar as precauções que aprendera com Eric Leroy para trabalhar durante o surto: esterilizar tudo com água sanitária, lavar bem as mãos e jamais tocar nos cadáveres. Aquela época terrível ficara no passado e, nos braços de Balo, Estelle era de novo uma jovem sorridente e saudável.
Balo tinha suas próprias, e terríveis, lembranças do surto e lamentava não só as perdas de Estelle. Ele nos mostrou um livro, um guia de plantas, em cujas páginas internas anotara uma lista de nomes: Apollo, Cassandra, Afrodita e 20 outros. Eram gorilas, todo um grupo que ele conhecera muito bem, que acompanhara e observara todos os dias. "Cassandra foi o meu bicho predileto", disse Balo. Apollo, ele recordou, tinha pêlo prateado nas costas. "Sont tous disparus en deux-mille trois", disse. Todos desaparecidos no surto de 2003. Ele perdera aqueles gorilas e também gente de sua família. "Foi muito duro."
Por um longo tempo Balo ficou ali parado, com o livro aberto, mostrando-nos aqueles nomes. Em termos emocionais, ele compreendia o que os cientistas descobriam nos laboratórios: que nós - seres humanos e gorilas, cavalos, porcos e morcegos, macacos, ratos, mosquitos e vírus - estamos todos juntos nesse barco.