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"DAQUI SINTO O CHEIRO DO MAR", diz o prisioneiro. Isso parece improvável demais falado por um homem que está numa cela à prova de som no norte da Malásia, a vários quilômetros em linha reta da água salgada mais próxima. O único odor que sinto nessa prisão úmida é o do amoníaco usado para limpar o chão.
É difícil decidir quais afirmações do prisioneiro merecem crédito. Ele já se declarou inocente em certos momentos, depois confessou ser um criminoso. Diz que tem três filhos, só que dali a pouco são quatro. Em seu passaporte consta o nome Johan Ariffin, mas as autoridades malaias duvidam que esse seja seu nome verdadeiro. A idade registrada é 44 anos (plausível, em vista dos fios grisalhos na cabeleira preta), e sua residência documentada ficaria em Batam, ilha na Indonésia logo ao sul de Cingapura. Muitos homens como ele são de Batam, comenta um guarda.
Embora os carcereiros continuem incertos sobre a identidade do homem, sabem o que ele é: lanun. O intérprete diz não existir um equivalente em inglês para esse termo, uma palavra recheada de cultura e história. A resposta, breve e imperfeita: o prisioneiro é um pirata.
Ele ganhou o epíteto no dia em que a polícia marítima malaia o capturou, com nove cúmplices, quando seqüestravam o petroleiro Nepline Delima, que carregava pelo estreito de Málaca 7 mil toneladas de óleo diesel, avaliadas em 3 milhões de dólares. Esse foi um dos ataques informados em 2005 no canal de 804 quilômetros que separa a ilha indonésia de Sumatra da península da Malásia, em cujo extremo sul está Cingapura.
Por séculos os navegantes foram cativos desse fiapo de oceano, usado como a rota mais direta entre a Índia e a China, riquíssima em recursos como especiarias, borracha, mogno e estanho. Além disso, era um verdadeiro reino marítimo, com centenas de rios que deságuam no canal, quilômetros de litoral pantanoso e uma vasta constelação de minúsculas ilhas, recifes e baixios.
Seus primeiros habitantes aprenderam a levar uma vida anfíbia: construíram aldeias acima da água e inventaram barcos especiais para a pesca, o comércio e a guerra. Alguns viviam da pirataria, assaltando as embarcações estrangeiras que se atreviam a navegar em suas águas. Em grupos de barcos leves e manobráveis, esses hábeis ladrões do mar saqueavam os navios que passavam e depois se refugiavam em aldeias fortificadas rio acima. Suas pilhagens renderam tesouros de ouro, pedras preciosas, pólvora, ópio e escravos - tesouros que foram empregados para construir poderosos sultanatos com domínio sobre boa parte da costa sumatrense e malaia.
Navegantes relataram o horror que enfrentaram no estreito e nas águas próximas. O capitão britânico James Ross foi capturado no século 19 em um desses episódios. Lanuns pensaram que o navio levava escondida uma carga de moedas de prata e forçaram o capitão a ver seu filho pequeno ser amarrado numa âncora e afogado. Depois deceparam os dedos de Ross, junta por junta.
Os colonizadores europeus e suas Marinhas subjugaram os sultanatos em fins dos anos 1800, mas os lanuns nunca foram erradicados. Os herdeiros de tal tradição no século 21 continuam a caçar nessas águas - em pequenas gangues que abordam as embarcações e assaltam a tripulação, sindicatos do crime multinacionais que roubam navios inteiros e grupos guerrilheiros que seqüestram navegantes para pedir resgate.
Não faltam alvos aos lanuns atuais. Eis os dados da seguradora Lloyds, em Londres: a cada ano, cerca de 70 mil navios mercantes, que movimentam um quinto de todo o comércio marítimo e um terço do petróleo bruto transportado no mundo, atravessam esse gargalo crítico da economia global. Zelar pela segurança no estreito é tarefa quase impossível por causa da geografia local, e tudo fica ainda mais complicado porque ele passa entre a Malásia e a Indonésia, célebres por suas relações espinhosas. O estreito, de quase 402 quilômetros de largura em sua embocadura norte, afunila-se para cerca de 16 quilômetros próximo ao extremo sul e é pontilhado por centenas de pequenas ilhas de mangue desabitadas que oferecem um sem-número de esconderijos para toda sorte de criminosos.
Desde 2002, o International Maritime Bureau (IMB), divisão da Câmara Internacional de Comércio dedicada a combater crimes marítimos, registrou 258 ataques de piratas no estreito de Málaca e nas águas próximas, com oito marinheiros mortos e mais de 200 feitos reféns. O departamento de segurança da Lloyd classificou o estreito como zona de guerra em junho de 2005. Malásia, Cingapura e Indonésia reagiram reforçando a segurança em suas respectivas águas, e o Lloyd suspendeu a classificação em agosto de 2006.
No entanto, computar o crime nessas águas é tarefa nebulosa. Noel Choong, chefe do Centro de Informações sobre Pirataria do IMB, estima que metade de todos os ataques de piratas não seja registrada. "Em alguns casos, os proprietários do navio dissuadem o capitão de informar o assalto", afirma. "Não querem publicidade negativa nem atraso do navio por causa da investigação." Resultado: ninguém sabe ao certo quantos piratas continuam em ação no estreito de Málaca.
Predador do mar
O que nos traz de volta a Ariffin, cumprindo sua sentença de sete anos na prisão. Um advogado contratado pelo consulado indonésio tem sido seu único visitante. O mais próximo dele que os guardas me permitem chegar é junto de uma janela à prova de balas, toda arranhada, de onde se vê a cela de entrevistas. Quando os guardas o trazem, ele não parece a figura imponente que eu imaginara. Ariffin tem pouco mais de 1,50 metro de altura, e seu colarinho aberto mostra um coração desbotado tatuado no peito fundo. Ele lembra mais um batedor de carteira cansado do que um pirata e não entende por que um estrangeiro pediu para vê-lo.
Ariffin e meu intérprete pegam os telefones ao lado da janela. Explico que li sobre o caso dele, que viajei desde o outro canto do mundo para ouvir sua história. Vim perguntar por que ele se tornou um lanun e descobrir como é possível um punhado de homens seqüestrar um navio gigantesco como o Nepline Delima.
Sentado em silêncio e com o telefone grudado à orelha, Ariffin olha alternadamente para mim e para o intérprete. Sua camisa está úmida de suor. "O advogado pegou todo o meu dinheiro", diz, por fim. "Eu não tenho sabonete. Não escovo os dentes desde que me trancafiaram aqui."
Informo que deixarei alguns artigos de higiene para ele com os guardas. Ariffin se anima e, sem pressa, começa a contar-me sua história, ou pelo menos uma versão dela.
O plano, revela Ariffin, foi tramado em um café em Batam quando um agente marítimo malaio procurou um marinheiro indonésio chamado Lukman. Ele queria saber se Lukman poderia organizar uma tripulação para seqüestrar o petroleiro. Ariffin, que virou marinheiro na adolescência e foi subindo na carreira naval até se tornar mecânico, já servira com Lukman. Achar trabalho vinha sendo difícil para os dois, e Lukman perguntou se Ariffin queria participar do golpe. Seria uma empreitada fácil, pois um tripulante do petroleiro participava do plano.
Ariffin conta que, quando era um jovem marinheiro, esteve em um navio atacado por piratas. Brandindo parangs (facões parecidos com machetes), eles ameaçaram matar todo mundo e levaram dinheiro e comida. Ele sorri com amargura. "É uma dureza para os marinheiros indonésios. Todos nós precisamos de dinheiro."
Ariffin disse a Lukman que aceitava. "Só precisávamos abordar o petroleiro, amarrar a tripulação e seguir para alto-mar", relata. Encontrariam um navio-tanque vindo da Tailândia, transfeririam o combustível e abandonariam o Nepline Delima. Lukman prometeu a Ariffin 10 mil dólares se manejasse os motores do navio.
O plano começou sem percalços. Disfarçados de turistas, Ariffin, Lukman e dois outros marinheiros de Batam fingiram tirar fotos a bordo de uma balsa que subia pelo estreito rumo ao porto malaio de Pinang. Ali se juntaram a seis homens que Lukman recrutara em Aceh, província de Sumatra. "Eles não eram marinheiros", diz Ariffin. "Precisávamos de seus músculos."
Em uma praia próxima, eles roubaram uma lancha de fibra de vidro, pintaram-na de azul e a abasteceram com gasolina, água e comida, dois telefones celulares, um GPS e cinco parangs recém-afiados. Além disso, cada homem trouxera uma máscara de esquiar, uma muda de roupa, algum dinheiro e um passaporte. Depois da meia-noite, entraram sorrateiramente no estreito. Enquanto isso, o cúmplice na tripulação do petroleiro lhes enviava mensagens informando sobre a posição, o curso e a velocidade do navio. E o mais importante, como lembra Ariffin: "Ele nos contou quando seria seu turno na guarda".
Algumas horas depois, os piratas, de máscara de esquiar e com parangs em punho, tinham dominado a ponte de comando do Nepline Delima. O sinal de socorro do navio fora desativado, e 16 dos 17 membros da tripulação jaziam amarrados e vendados numa cabine trancada, alguns deles sangrando. Os piratas alteraram o curso do petroleiro tailandês rumo a alto-mar. Na noite seguinte a quadrilha voltaria para se esbaldar no que os piratas de Batam chamam de "alegria, alegria": um atordoamento hedonista com doses cavalares de ecstasy e metanfetamina cristal e maratonas com prostitutas. Ou, valendo a palavra de Ariffin, a volta para casa e para a família.
O problema foi o 17o tripulante. Logo depois que os piratas abordaram o navio, Ariffin, que guardava a lancha, ouviu um dos marinheiros gritar: "Lanun!". O convés virou um pandemônio com os piratas tentando prender a assustada tripulação. Lukman e dois outros estavam na ponte de comando. Ligaram o sistema de comunicação e se puseram a espancar o capitão até que os berros do homem ordenando que a tripulação se entregasse fossem ouvidos nos alto-falantes. "Por favor, eles estão me matando", ele gritava. Dezesseis tripulantes acabaram desistindo. Os piratas perguntaram o nome de cada um, depois os vendaram e os amarraram. "Tínhamos uma cópia do manifesto do navio", disse Ariffin, "e sabíamos que estava faltando um marinheiro."
Nesse meio-tempo, o mar se encrespara. Ariffin amarrou a lancha no parapeito do navio e subiu a bordo à procura da sala de máquinas. Ali, uma hora mais tarde, ele ouviu um grito desvairado vindo da ponte: era Lukman. O tripulante que faltava fugira na lancha dos piratas e os deixara encalhados no petroleiro. Ariffin pôs força total nos motores do Nepline Delima, tentando chegar às águas internacionais, mas mesmo a toda velocidade o petroleiro só conseguia fazer cerca de 19 quilômetros horários. Dali a poucas horas a polícia marítima malaia impediu-lhes a fuga. Ariffin foi para o convés e acendeu um cigarro. "Alá pôs a mão naquele marinheiro."
Um guarda faz sinal de que nosso tempo acabou. Depressa, conto a Ariffin sobre meu plano de ir a Batam. O guarda põe a mão no ombro de Ariffin. O prisioneiro agarra o telefone. Pela primeira vez noto seus antebraços musculosos. Ele fala rápido, antes que o guarda o leve.
"Ele disse: vá para o café atrás do Hotel Harmoni", traduz o intérprete. "Diga aos marinheiros de lá que John Palembang manda lembranças. E não se esqueça da escova de dentes."
A irmã feia de cinderela
"Quer garotas?", pergunta o motorista de táxi no caminho para Nagoya, uma das maiores cidades da ilha de Batam. "Drogas?" Ele me fita pelo retrovisor. "Posso arrumar. Qualquer coisa. Sem problema."
Se Cingapura, apenas 11 quilômetros ao norte, é a Cinderela do Sudeste Asiático, com fulgurantes arranha-céus e economia próspera, Batam é sua irmã feia. As duas se situam frente a frente no trecho em que o estreito de Málaca desemboca em um estreito menor, o de Cingapura. Ali, um incessante desfile de navios, mais de mil por semana, passa entre elas. A maioria faz negócios em Cingapura, que possui uma das principais zonas francas do mundo, além de prósperos setores financeiro e tecnológico.
Nos anos 1980, a Indonésia tentou imitar o sucesso de Cingapura e começou a transformar Batam, uma das ilhas do arquipélago Riau próximas da costa leste de Sumatra. Pretendia fazer daquele posto avançado de pescadores infestado de malária uma zona livre de taxas para atrair empreendedores. Incorporadoras construíram campos de golfe na selva e ergueram cassinos para seduzir turistas da Malásia e de Cingapura. Investidores financiaram fábricas e galerias comerciais, centros empresariais e prédios de apartamentos. Indonésios afluíram para a florescente cidade de Batam em busca de emprego. A ilha tornou-se um centro de agentes marítimos que contratavam marinheiros para as companhias de navegação.
Porém, faltou a Batam imitar Cingapura no rigor da lei. O clientelismo e a corrupção se instalaram, e a ilha logo se tornou reduto de uma invulgar mistura de gângsteres, contrabandistas, prostitutas e piratas. Madeira extraída ilegalmente, óleo diesel adulterado, carros roubados, drogas, armas e animais de comercialização proibida passavam por seus portos. Multidões de homens chegavam de balsa nos fins de semana: vinham de Cingapura para visitar os prostíbulos abarrotados de moças pobres.
Enquanto isso, alguns agentes marítimos tratavam de seus próprios negócios escusos: recrutar piratas para sindicatos do crime asiáticos. Em 1997, a bolha explodiu quando a crise financeira se abateu sobre a Ásia. O dinheiro dos investimentos evaporou em Batam, deixando a ilha pontilhada de canteiros de obra abandonados. O desemprego aumentou, impelindo mais gente para a economia ilegal. Embora nos dois últimos anos os investidores tivessem começado a retornar, a ilha ainda abrigava uma grande parcela de moradores que só podem ser descritos como desesperados.
Pergunto ao motorista do táxi se ele conhece o café atrás do Hotel Harmoni. "Fica em Jodoh", responde, referindo-se à zona decadente de Nagoya. "Muitos assassinatos ali", o taxista adverte. "Melhor telefonar para mim, que eu levo as moças para o senhor."
Andorinhões fantasmas
Os primeiros sons que se ouvem ao caminhar de manhã pelas estreitas avenidas de Jodoh são os silvos dos andorinhões. Nem os vendedores, que apregoam frutas, roupas de segunda mão e eletrodomésticos usados, podem competir com a retumbante cantoria dos pássaros. Mas esse é um dos muitos engodos de Jodoh: os chamados para acasalamento são gravados e transmitidos por alto-falantes para atrair andorinhões de verdade. As aves vêm, constroem ninhos nos andares superiores vazios de muitos prédios, e esses ninhos são vendidos por centenas de dólares a restaurantes que servem sopa de ninho.
Outro engodo é o "café", um eufemismo para antro de jogo onde marinheiros encontram cambistas, ouvem as novidades, tomam cerveja e fazem apostas em um jogo de números. Entretanto, desde o ano em que Johan Ariffin, também conhecido como John Palembang, foi para a prisão, muita coisa mudou em Batam. Em especial, o novo chefe de polícia da Indonésia endureceu o combate ao jogo na ilha. O setor que mais sofre com isso é o turismo, dependente das avalanches de cidadãos oriundos de Cingapura que enchiam as estâncias de Batam.
Quando chego ao café atrás do Hotel Harmoni, encontro as janelas pintadas de preto e a porta da frente fechada com corrente. Assim, minha esperança de encontrar os amigos de John Palembang poderia ter-se esvaído não fosse por Jhonny Batam. Alguém em quem ele confiava me dá seu nome - um de seus nomes. Ele é um profissional da oportunidade, dizem-me. Capitão de navio, Jhonny pilotara embarcações de companhias regulares e de entidades menos escrupulosas. Tem fama de conhecer todos os navios do porto e todos os negócios dos cafés de Batam. Se alguém conhece John Palembang, esse alguém é Jhonny Batam.
De início, fazer contato com ele é como procurar um dos andorinhões fantasmas de Jodoh. As ligações para seu celular ficam sem resposta até que, em uma manhã, ele me telefona e diz que não fez contato antes porque estava encalhado na ilha Bangka, ao sul do estreito de Málaca. Um certo "negócio" dera errado, e ele ficara sem dinheiro. Concordo em mandar-lhe 80 dólares para a passagem de avião até Batam.
Como combinado, Jhonny Batam aparece no dia seguinte numa ruela perto de uma fieira de açougues. Sangue de animais corre pela sarjeta sob o cheiro sufocante de carne fresca. Jhonny, um cinqüentão troncudo e bem-apessoado, está de camisa esporte imaculadamente branca, calça vincada e cabeleira negra ondulada num penteado impecável. Uma imitação de Rolex dourada dança em seu pulso, e não fossem as tatuagens nas juntas dos dedos ele poderia ser confundido com um golfista profissional.
No restaurante próximo, Jhonny diz que conhece John Palembang - um marinheiro subalterno, explica. O fiasco no Nepline Delima fora alvo de chacota da turma dos cafés. "Amadores", zomba Jhonny. Ele passa a descrever sua carreira. Pilotara rebocadores e uma balsa antes de assumir o leme de um pequeno cargueiro. Com o tempo, formou uma rede de amigos entre os marinheiros e os estivadores. Em sua trajetória pela vida naval, fez bicos ilícitos: contrabandeou alho do mercado negro, cigarros, produtos eletrônicos e drogas. Na década de 1980, mudou-se para Hong Kong e foi trabalhar para sindicatos do crime chineses. Ali ampliou seu repertório na arte de dar sumiço em cargas.
Ele calcula que 75% dos assaltos a carregamentos são feitos com a ajuda de gente da tripulação e que em vários casos participa o próprio capitão. Funciona assim: um agente marítimo telefona dizendo que tem um cliente precisando de óleo diesel. "Conheço um tripulante de um petroleiro", diz Jhonny. "Ligo para o celular dele e pergunto se está feliz. Se ele responder que sim, tudo bem. Mas, se disser que não, digo que o farei feliz, e então bolamos um plano." Mas esse tripulante nunca mais trabalhará legalmente, replico. Ele ri. "Os marinheiros têm muitos nomes. Alguns possuem três ou quatro passaportes. Não há problema."
Em meu quarto no hotel, abrimos um mapa do estreito de Málaca em cima da cama. Os dedos grossos de Jhonny percorrem lentamente as linhas da costa com a prática nascida da familiaridade. Ele aponta lugares com baixios obscuros e assinala correntes e ilhas não-mapeadas. "Esta área", diz, rodeando Batam e Cingapura, "agora, patrulhas demais." Leva o dedo até um ponto no sul do estreito: "Hoje o melhor lugar para comprar é aqui".
"Comprar", a gíria de Batam para o nível inferior da pirataria, equivale aproximadamente a assaltar um bar de estrada. Até os menores cargueiros e navios-tanque levam quantias substanciais em dinheiro vivo, usadas para adquirir suprimentos no porto e pagar a tripulação. Muitos desses navios são antigos e têm um esquema de segurança pior que o das embarcações maiores e mais novas. Jhonny conta que alguns capitães fazem seus próprios trambiques, como navegar a baixa velocidade para economizar combustível, revender o excedente a navios de passagem e embolsar o lucro. Explica que as viagens de compras são feitas por grupos de "esquilos saltadores". Assim são chamados os piratas que usam pancungs - lanchas de madeira com motores potentes - para perseguir os navios à noite, subir pelo costado e assaltar a tripulação. Digo que gostaria de conhecer um esquilo saltador. "É possível", ele responde, e disca um número.
Esquilos saltadores à prova de balas
Já está escuro quando um rapaz esguio com reflexos louros no cabelo escuro e uma argolinha de prata na orelha esquerda bate à porta. Ele parece espantado por ser recebido por um estrangeiro e dá um sorriso nervoso para Jhonny, deixando à mostra o caco enegrecido de um dente incisivo. "É perigoso?", pergunta.
Jhonny apresenta-o como Beach Boy. Com aquele bronzeado, o físico atlético e o relógio à prova d'água, ele faz mesmo o tipo. Saiu de uma prisão na Indonésia há apenas dez meses, após cumprir pena de dois anos por ter participado do seqüestro de uma balsa que levava mais de 1 milhão de dólares em óleo de palmeira bruto. Depois de roubar a carga, a quadrilha se dispersou. Porém, os cúmplices de Beach Boy o delataram à polícia. Ele diz que foi detido, interrogado, espancado e baleado na perna. Ergue a barra direita da calça e mostra uma cicatriz do tamanho de um punho fechado na panturrilha. "A bala ainda está alojada bem aqui", afirma. A mais dolorosa conseqüência de sua temporada na prisão, revela, foi perder a família: recebeu uma carta da mulher avisando que o trocara por outro.
Insisto em saber como seu grupo conseguia entrar nos navios sem ser detectado. "Fazemos mágica", responde Beach Boy. "Usamos um feitiço para manter a tripulação dormindo. Podemos ser invisíveis e à prova de balas." Ele aponta para a própria cabeça. "É um poder que a gente aprende." Pergunto como ele fora atingido, então. "Atiraram duas vezes", retruca. "Resisti à primeira bala, mas não tive forças suficientes para a segunda."
Mais tarde naquela noite, enquanto Jhonny e eu matamos o tempo tomando cerveja em um café ao ar livre, Beach Boy conta que acredita em matemática, não em mágica. Pede emprestada uma caneta e, em um guardanapo, demonstra como reduzir meu número de telefone, ou qualquer número de sete algarismos, ao número 8 usando uma série de equações. "Parece magia", diz, "mas é matemática." Conta que sempre foi fascinado por números. Quando menino, memorizava vários desses truques numéricos para entreter os outros e, mais tarde, se tornou autodidata em álgebra e geometria. No mar, aprendeu a confiar muito mais nos números do que em superstições. Os números lhe diziam quantos quilômetros ele navegara, quando mudar de rumo, de quanto combustível o navio precisava, qual a velocidade do vento. Os números eram previsíveis, explicáveis, confiáveis - qualidades raras de encontrar no mundo de Jhonny.
Ainda rabiscando no guardanapo, ele pergunta se eu já ouvi falar da idéia de "proporção áurea", algo que ele depois define como uma razão, descoberta por matemáticos gregos, que representa o equilíbrio perfeito. Os marinheiros de Riau têm sua proporção áurea, diz. Ela mede o ponto em que compensa trocar o trabalho dentro da lei pelo trabalho ilegal. Enquanto essa versão malaia da proporção áurea favorecer o roubo de navios, haverá piratas no estreito.
Treino de pirata
Alguns dias depois, Jhonny, Beach Boy e eu pegamos um táxi até o porto. Beach Boy providenciou tudo para me mostrar como um grupo de esquilos saltadores aborda um navio. Diz que seria numa ilha desabitada, não longe de Batam, onde ele às vezes treinava.
Na ponta de um quebra-mar descorado pelo sol, dois jovens musculosos, Muhammad e Hakim, esperam por nós em um pancung de madeira. Beach Boy explica que aqueles barcos são ideais porque o peso e o formato lhes permitem se aproximar dos navios, ao contrário dos barcos de fibra de vidro, que, por ser muito mais leves, acabam arremessados pelas águas revoltas.
Sentamo-nos no barco, dois a dois, e fico ao lado de Muhammad. "Está pronto para aprender como se rouba um navio?", ele pergunta.
O sol bate em nossos ombros. Hakim nos conduz para fora da enseada, rumo a uma densa floresta que parece flutuar sobre a água: uma das inúmeras ilhas de mangue do estreito. Faz frio no interior do manguezal. Entramos em sombras densas e saímos delas, seguindo a trilha aquática até que esta se abre para um claustro de palafitas. "Assalamu alaikum", Hakim grita. Nenhuma resposta. Ele desliga o motor. Beach Boy agarra um galho de árvore e segura o barco, enquanto Hakim saca um parang. A lâmina curva do facão reluz com o óleo usado para afiar o gume. Com golpes rápidos e secos, Hakim corta um pedaço de raiz com cerca de meio metro e o joga dentro do pancung.
Navegamos para fora do manguezal e seguimos até uma ilhota a uns 1,5 mil metros dali. Assim que desembarcamos, Beach Boy desaparece na mata cerrada. O resto de nós permanece na praia, de onde se tem ampla visão da navegação no canal. "Anos atrás este era um dos principais lugares para iniciar um ataque. Agora há patrulhas demais", diz Muhammad. "Mas existem outros locais." Pergunto-lhe por que se tornou pirata. "Em parte por causa do dinheiro", diz. "Além disso, é uma aventura, tipo James Bond."
Beach Boy sai da mata com um bambu de 6 metros de comprimento. Limpa os brotos do bambu, enquanto Hakim usa o parang para talhar a raiz de mangue em forma de um espeto de 30 centímetros. Quando ele termina, Hakim amarra o espeto em ângulo na ponta do bambu. "É assim que subimos a bordo do navio", explica, fingindo que uma árvore próxima é o costado da embarcação. "O tekong (condutor) manobra o pancung até a popa", diz, erguendo a vara e enganchando o espeto num galho alto.
Ele agarra a vara com as duas mãos. Com agilidade e desenvoltura, iça o corpo, ergue as pernas, prende o bambu nos pés e vai subindo como em um pau-de-sebo. Chega ao topo em segundos, depois desce escorregando pela vara. "É assim que cinco esquilos saltadores podem subir num navio em menos de um minuto."
Beach Boy diz que, para alcançar o convés das embarcações mais altas, eles emendam dois ou três bambus. De repente, sinto alguém segurar meu ombro e encostar a lâmina gelada de um parang no meu pescoço. "E então a gente pega o primeiro marinheiro que vê", berra Muhammad no meu ouvido, "e manda: 'diga onde está o dinheiro'." Meu coração sai do compasso até eu perceber que o homem só está demonstrando o próximo passo de um ataque. "E o marinheiro obedece, mansinho como um búfalo de rio."
Voltamos ao pancung e seguimos para Batam, mas, quando nos aproximamos da enseada, Hakim desvia em direção a um dos enormes cargueiros ancorados perto da entrada. Hakim manobra o pancung até a popa do navio, e ficamos rente ao leme. "Este é o buraco", diz Muhammad, com a voz fazendo eco no casco. "Aqui a tripulação não pode nos ver." Olho para cima e noto que o casco arqueado encobre o pancung para quem se encontrar no convés. "Quando o navio está em movimento, a água aqui é muito turbulenta." Ele aponta um trecho na superfície acima da enorme hélice. "O tekong tem de manter o pancung firme enquanto erguemos o bambu e subimos. É por isso que o tekong sempre fica com uma parte maior do dinheiro."
Alegria, alegria
De volta a Batam, Jhonny e Beach Boy se oferecem para me mostrar onde os piratas fazem sua "alegria, alegria". Jhonny e outros contam que, depois de roubos grandes, muitos piratas pegam um avião para Jacarta, hospedam-se em hotéis de luxo e torram polpudos maços de dinheiro em extravagâncias inimagináveis, como um clube de striptease onde se pode comer sushi servido no ventre das dançarinas. Mas, depois de uma viagem de compras, os piratas de Batam podem festejar também por ali mesmo, em um dos bares de karaokê. "Vamos para o Die Nasty" (algo como "Morra Cruelmente"), ouço Jhonny propor. Beach Boy concorda.
Noite alta, nós três andamos pelas ruas escuras de Jodoh, onde garotas de blusa decotada nos chamam sob letreiros iluminados que anunciam karaokê. Chegamos a nosso destino, na verdade um clube chamado Dynasty ("Dinastia"). O salão úmido, na penumbra de lâmpadas alaranjadas, cheira a cigarro de cravo-da-índia. Uma garçonete nos leva a uma mesa e traz cerveja. Beach Boy examina o menu de músicas para ver o que se pode cantar. Junto à parede do fundo, uma fileira de moças senta-se sob um renque de holofotes. Cada uma usa um crachá com um número. Dão risadinhas de flerte, fazendo contato visual conosco. "Recepcionistas de karaokê", Jhonny explica. Ele vai até as mulheres e percorre a fila sorrindo e conversando. Por fim, volta com uma garota, que se instala entre nós dois.
"What your name?", pergunta a mulher num inglês carregado, afagando minha coxa. Respondo e menciono que vim só para o karaokê.
Beach Boy escolhe suas canções, e a garçonete traz o microfone. Começa a música, e num telão aparece a letra de Stairway to Heaven, de Led Zeppelin: "There's a lady who's sure all that glitters is gold, / and she's buying a stairway to heaven". Beach Boy fecha os olhos e solta uma bela voz de tenor. "Ooh, it makes me wonder."
A moça ao meu lado achega-se mais. "Por favor, pode me ajudar? Sou a garota mais feia no Die Nasty. Faz duas semanas que não tenho cliente." Ela conta que todo mês deve pagar ao dono do clube pelo quarto e pela comida. Passo-lhe discretamente algum dinheiro.
Jhonny pega o microfone. A esta altura já tem à sua frente algumas garrafas vazias e está na maior animação, gracejando com a recepcionista de karaokê, provocando a garçonete, pagando drinques. Ele canta uma velha canção de Rod Stewart, Sailing ("Navegando"), mas na metade da música percebo que não está seguindo a letra em inglês. Parece cantar em indonésio, inventando as palavras na hora. Todo mundo ri até o momento do refrão, quando ele retoma a letra do telão. Com os braços ele nos convida a cantar junto, e logo todo mundo no Die Nasty acompanha Jhonny Batam.
O 17-o tripulante
Um marinheiro que nunca foi atraído pela pirataria se chama Mohamed Hamid. Ele é o tripulante que escapou do Nepline Delima e voltou com a polícia para salvar a tripulação. Vou visitá-lo em sua casa na Malásia, longe do estreito de Málaca. O episódio o impelira a abandonar a carreira de marinheiro aos 28 anos.
Sentamo-nos em esteiras na varanda da casa de seu pai, construída sobre palafitas. Ele me conta sobre aquela noite, que diz ter sido a mais assustadora de sua vida. Ao ouvir as súplicas do capitão pelo alto-falante, Hamid estava a caminho da ponte de comando para se render quando um dos piratas subitamente lhe pôs uma faca na garganta. "Pensei que ia morrer", diz. Mas o instinto prevaleceu, e ele deu uma cotovelada no homem, pulou três lances de escada e lá embaixo, no convés principal, escondeu-se debaixo de alguns canos. Deitado, recitava orações muçulmanas e tentava se refazer, quando então viu a corda da lancha dos piratas amarrada na amurada.
Hamid descreve sua fuga com lances quase cômicos. Ele prendeu o pé na grade da amurada e acabou caindo dentro da lancha. Depois, demorou longos e agonizantes minutos para cortar a grossa corda com um canivete sem fio e, por fim, permaneceu deitado no fundo da lancha, suando, enquanto ela se afastava, à deriva, na escuridão. Ele encontrou a popa pelo tato e foi seguindo os fios do motor até a chave de ignição. Para piorar a situação, nuvens cobriam as estrelas que poderiam guiá-lo a terra firme. Começou a chover. "Orei a Alá: 'Já que me trouxe até aqui, por favor, mostre-me o caminho'." Hamid ligou o motor e torceu para estar seguindo rumo a socorro.
Menos de 24 horas depois, Hamid era saudado como herói. Ele conseguira chegar à ilha malaia de Langkawi e guiar a polícia naval até o Nepline Delima. Após um tenso impasse, todos os dez piratas resolveram se render.
Nove deles foram sentenciados à prisão. O agente marítimo se declarou inocente e ainda aguarda julgamento. Ele e o suposto cúmplice que era tripulante do Nepline Delima, que também alega inocência, estão detidos e serão julgados em breve. Hamid ficou perplexo ao saber das acusações contra seu colega de tripulação. "É como descobrir que o diabo é meu irmão", ele diz.
Dois meses depois, em uma festa de casamento nos Estados Unidos, meu telefone vibra. É uma mensagem de Jhonny Batam: "Arrumei emprego como capitão em um navio-tanque Jhon". Por um momento eu estou de volta ao Die Nasty, vendo Jhonny e Beach Boy no karaokê. Nenhum ataque de piratas foi informado no estreito de Málaca desde minha partida. A Indonésia e a Malásia pediram ajuda a governos estrangeiros para financiar o patrulhamento. Sem recursos adicionais, não se sabe até quando a Marinha indonésia, com suas verbas apertadas, vai manter o atual nível de vigilância.
Quanto ao destino desse navio-tanque, penso comigo, talvez Jhonny tenha enveredado por um novo caminho, grato por um emprego legal, servindo lealmente a seu patrão. Mas, se trabalhar em outra via render mais dinheiro, posso imaginá-lo dizendo que se deve obedecer à proporção áurea dos piratas. Afinal, Jhonny Batam é um profissional da oportunidade.