Norman Saake tirou uma asa de pato-real de uma caixa de papelão, abriu-lhe as penas de modo que a tonalidade azul-metálica brilhasse à luz e sorriu. "É incrível, depois de 30 anos fazendo isso, ainda fico maravilhado quando vejo uma asa assim", comentou Saake, exibindo-a de modo que pudesse ser admirada por três ou quatro colegas debruçados sobre a mesa. Saake, um biólogo aposentado da Secretaria de Fauna Selvagem do estado de Nevada, havia cruzado o continente a fim de participar de mais uma maratona de identificação de asas, um dos vários eventos desse tipo que são cruciais para a saúde da população de aves aquáticas nos Estados Unidos.
Cada uma daquelas asas contava uma história. Examinando as penas de pato-real por alguns segundos, um veterano como Saake consegue distinguir se é de macho ou fêmea, jovem ou adulto, espécime puro ou híbrido. Depois de uma semana classificando asas em Laurel, os cientistas podem avaliar se ainda há, em cada espécie, espécimes jovens em quantidade suficiente para garantir a sobrevivência da população. Tais levantamentos, associados aos dados coligidos em maratonas de asas e em pesquisas realizadas em outras regiões, permitem que os responsáveis pelo controle dos recursos determinem quanta pressão de caça cada espécie pode suportar de um ano para o outro. Este é um critério fundamental seguido pelo U.S. Fish and Wildlife Service ao fixar o número máximo de animais que podem ser abatidos na temporada de caça seguinte - não só no caso das aves aquáticas, mas também no de galinholas, narcejas, pombos e outras espécies de aves migratórias que se encontram sob proteção federal.
"A proporção de faixas etárias de fato nos ajuda a saber como uma determinada espécie está resistindo", diz Paul Padding, o representante do U.S. Fish and Wildlife Service na maratona da Atlantic Flyway Wing Bee.
A grande ironia é que muitas espécies talvez hoje estivessem extintas não fosse pelos caçadores que vivem atrás delas. Todas as asas examinadas por Norman Saake e seus colegas em todo o país foram enviadas pelos próprios caçadores, que as colocaram em envelopes pré-selados, registraram a data e o local em que abateram as aves e as mandaram pelo correio. Este é um dos vários exemplos de como os 12,5 milhões de caçadores existentes nos Estados Unidos tornaram-se parceiros importantes no manejo da fauna selvagem. Eles gastaram mais de 700 milhões de dólares em estampilhas de patos, que permitiram o acréscimo de 2,1 milhões de hectares à área do National Wildlife Refuge System [Sistema Nacional de Refúgios da Fauna Selvagem] desde 1934, ano em que foram emitidas as primeiras estampilhas (acima). Todos os anos, os caçadores pagam milhões de dólares em licenças abrangentes e específicas, assim como em permissões locais, e esses recursos contribuem para a manutenção dos órgãos estaduais que regulamentam a caça. Além disso, contribuem com mais de 250 milhões de dólares em impostos sobre armas, munição e outros equipamentos, recursos destinados sobretudo ao estabelecimento de novas áreas públicas de caça. Também no setor privado, os caçadores vêm desempenhando papel cada vez mais importante na conservação da vida selvagem.
TED TURNER, que além de ser pioneiro da mídia também aprecia a caça, é o maior proprietário individual de terras nos Estados Unidos. Ele trabalhou de maneira incansável para reintroduzir o bisão americano em grande parte de seus hábitats tradicionais. Agora, nos cerca de 800 mil hectares que possui em território americano, Turner vem se empenhando em desenvolver tanto a biodiversidade como o exploração sustentável da agricultura, madeira, pesca - e da caça.
"Tudo começa com o manejo adequado da terra", diz o magnata, que permite a entrada em suas propriedades de gente disposta a pagar para abater faisões, bisões, alces, perus e outras espécies. "A saúde dos animais depende da saúde da terra. Eles precisam de água boa, abrigos bons e comida boa. Quando falta uma dessas três coisas, não se têm animais. Nas minhas fazendas, a prioridade é a manutenção da fauna selvagem. Quando se trata do ambiente, quero fazer a coisa certa. E quero que os outros vejam o que se pode fazer com a terra - mesmo que não sejam bilionários."
Turner encontrou uma maneira de fazer com que os próprios caçadores financiem a conservação. Em uma de suas propriedades, a fazenda Vermejo Park, no Novo México e Colorado, alguns poucos privilegiados recebem permissão para abater algo como 200 alces por ano - cerca de 2% de uma manada de 10 mil alces. Cada animal abatido sai por cerca de 10 mil dólares para o caçador, o que significa um rendimento da ordem de 2 milhões de dólares por ano. "Bem, esse é um número bastante razoável", comenta Turner, que usa o dinheiro para manter a propriedade de 240 mil hectares em condições relativamente selvagens, com poucas áreas cercadas e preservação da flora local e da fauna selvagem.
Já os caçadores de recursos mais modestos contribuem para a conservação de outras maneiras, destinando 280 milhões de dólares por ano a organizações como Pheasants Forever, Ruffled Grouse Society, National Wild Turkey Federation, Quail Unlimited e outros grupos sem fins lucrativos que patrocinam pesquisas científicas de determinadas espécies e preservam hábitats importantes. Desde sua fundação em 1937, a organização Ducks Unlimited já assegurou a preservação de 4,5 milhões de hectares de terras úmidas e áreas circundantes. Os caçadores também atraem a atenção pública para questões de conservação, tanto nas assembléias legislativas estaduais e no Congresso, como na sociedade em geral. Quando alguém compra uma capa de camuflagem (por 25 dólares), por meio do catálogo da Ducks Unlimited, uma parcela dos rendimentos vai beneficiar projetos de conservação. Quem visita Bozeman, em Montana, e ali adquire um par de botas Schnee's Pac, sabe, pela etiqueta presa ao cadarço, que a Rocky Mountain Elk Foundation irá receber parte do dinheiro para seus projetos.
"Os caçadores são os responsáveis pela manutenção da maioria dessas espécies", comenta Jim Clay, um professor secundário de inglês, caçador e fabricante de dispositivos que imitam a voz do peru em Winchester, na Virgínia. "São eles que entram com o dinheiro, e também com o tempo. Os caçadores são os que se preocupam de fato com o que acontece."
SOU UM CAÇADOR DE AVES que só às vezes derruba um cervo por causa de sua carne, e nunca partilhou do fascínio do caçador de animais de grande porte por chifres, galhadas e troféus, os quais conferem uma posição exaltada a aqueles que se importam com tais coisas. Gente que carrega na carteira fotos de troféus com alces e veados-galheiros, e que conhece de cor os detalhes dos critérios, como os do Boone and Crockett Club, usados na avaliação dos animais abatidos e da habilidade dos caçadores. É possível que essa febre por troféus tenha as mesmas raízes estéticas que me levam todos os anos a guardar algumas penas de tetraz ou de galinhola - que são belas por seus próprios méritos e lembram uma ocasião específica no campo, quando uma ave gorjeava na copa dos amieiros e depois foi atingida em pleno vôo, e em seguida recuperada por Bart, um velho spaniel bretão que ainda sabe do riscado e não perdeu a elegância.
Bart e eu nos acomodamos no carro assim que chegam os primeiros dias frescos de outono, a fim de seguirmos para o norte, como fazemos há mais de uma década. Mesmo com 13 anos de idade, Bart ainda fica tão excitado quanto um filhote; ele sabe muito bem o que o espera, exatamente aquilo para o qual foi criada a sua raça de cão apontador - ou seja, capaz de indicar com a cabeça onde está a caça. Ano após ano, percorremos os mesmos bosques com terra vegetal, enfrentamos os mesmos matos de arbustos espinhentos, ouvimos as mesmas e velhas histórias contadas por amigos em New Brunswick e no Maine, e dormimos nos mesmos hotéis vagabundos ao longo do caminho. Lamentamos os cães que morreram desde o ano anterior e somos apresentados aos filhotes que vão substitui-los. Essa rotina é um lembrete de que as estações do ano seguem um ritmo tão antigo e confortador quanto o Eclesiastes - pensando bem, um ritmo talvez ainda mais antigo.
Cada ave que Bart me traz é acolhida com um misto de gratidão e tristeza, ambos expressos no gesto de alisar as penas de cor terrosa. Quando caçamos o suficiente para preparar uma refeição, aí a ocasião torna-se cerimoniosa, requerendo um bom vinho e propiciando extravagantes elogios a Bart, que já não mais consegue ouvir o que falo mas finge que entende, sabendo que isto irá lhe render um saboroso pedaço de galinhola ou tetraz no final do espetáculo. Todos esses gestos são importantes em um mundo no qual a caça parece estar se tornando cada vez mais irrelevante e odiada.
Bem, tal ódio é até compreensível. No condado rural da Virgínia onde moro, meus vizinhos percorrem as estradas à noite, usando as luzes dos carros para paralisar e abater ilegalmente os cervos, tanto durante como fora da estação de caça. No outono do ano passado, dentro dos limites de minha propriedade, encontrei um filhote de corça cuja espinha fora destroçada por uma bala, tornando imprestáveis suas pernas traseiras; fora isso, o animal estava alerta, e me fitou com grandes olhos enquanto tentava se afastar, arrastando-se só com as pernas dianteiras. Não me restou outra saída além de lhe abreviar o sofrimento e nas semanas seguintes comi a sua carne, considerando que não havia motivo para agravar o crime de meu vizinho e condenar aquela pobre criatura à lata de lixo. Recentemente, em um ponto mais adiante na estrada, no Parque Nacional Shenandoah, as autoridades desbarataram uma quadrilha de caçadores que abatiam ursos-negros e vendiam suas vesículas no mercado asiático de remédios tradicionais.
Em outras partes campeiam os abusos, com os caçadores instalando armadilhas para patos, desrespeitando a quantidade máxima de aves que podem ser abatidas, fazendo pouco dos datas das temporadas de caça, disparando suas armas nas proximidades de residências e discutindo com os proprietários que os surpreendem em suas terras. Até mesmo quem caça dentro da lei muitas vezes não o faz de modo ético, permitindo que presas agonizantes se debatam enquanto posam para fotos, multiplicando as mortes muito além do que pretendem consumir, e tratando suas vítimas como meras coisas inanimadas.
"Quando estamos caçando", diz o guia Grayson Chesser, especializado em aves aquáticas e entalhador de iscas na Virgínia, "temos de ser éticos. Precisamos levar em conta o nosso impacto sobre as outras criaturas. Mas temo que essa nova geração de caçadores já esteja desconectada da tradição. Na metade das vezes, nem mesmo sabem em que estão atirando - tudo o que lhes interessa é ter a arma mais moderna, a camuflagem mais avançada. E eles o consideram uma espécie de maricas se você não matar a maior quantidade possível de animais."
MAIS TÍPICOS talvez sejam aqueles caçadores que encontramos nas pradarias ventosas da região central de Montana, onde um grupo local da organização Pheasants Forever transformou uma área de 325 hectares em refúgio para faisões e outras criaturas selvagens.
"Os faisões precisam de alimento e abrigo", comenta o biólogo Tom Stivers, do Departamento de Pesca, Fauna Selvagem e Parques de Montana, enquanto me apresenta o projeto Coffee Creek. Os campos ondulantes e sem árvores pareciam bem cuidados. Fieiras de alfafa, trevo-cheiroso e artemísia acompanhavam o trajeto sinuoso do riacho Coffee, enquanto as colinas vizinhas estavam repletas de arbustos dos gêneros Juniperus, Shepherdia e Ribes aureum. Ao longe, remoinhos de neve circundavam Square Butte, uma chapada que ancora toda a cena, tal como o fazia nos quadros do pintor rural Charles M. Russell.
"Muita comida e muito abrigo", insiste Stivers. "Enquanto contarem com essas duas coisas, os faisões continuarão na área - mesmo que estejam sendo intensamente caçados. Se o hábitat é preservado, a atividade de caça não é, na verdade, um fator restritivo; basta que seja administrada adequadamente."
Durante uma hora e tanto percorremos as colinas, mas não vimos nem ouvimos nenhum outro ser humano, nem sequer o rumor distante de uma caminhonete. Em uma das colinas, topamos com um bando de 20 tetrazes-de-cauda-afilada, avistamos águias-calvas circulando sobre nossas cabeças e distinguimos talvez uns 50 veados-mula seguindo na direção do horizonte. Mas nem um único faisão.
"Onde estão os faisões?", perguntei.
"Ah, tem muito por aí", respondeu Stivers, discretamente apontando o terreno com uma bota bastante gasta, e chamando a atenção para centenas de marcas deixadas na neve. Após a longa temporada de caça, as aves ficam ariscas diante de todos os bípedes. Os abrigos proporcionados pelas linhas baixas de arbustos estavam cumprindo bem sua função, ocultando os faisões e protegendo-os do inclemente inverno de Montana.
A região também proporciona uma espécie de refúgio para gente como Craig Roberts, o fundador do grupo local do Pheasants Forever na cidade de Lewistown, em Montana. No passado, assim que encerravam o expediente de trabalho, os caçadores podiam agarrar uma espingarda e se embrenhar no mato sem que precisassem se preocupar em cruzar com outras pessoas. Mas os padrões de propriedade da terra mudaram muito nos últimos anos, com as antigas fazendas sendo subdivididas em outras menores, e os novos proprietários reservando para si os direitos de caça ou proibindo completamente o esporte.
"O acesso tornou-se um problema maior do que o hábitat", comentou Roberts por telefone, desde o local em que passa o inverno, no Novo México. "Como a demanda por terra é bem maior do que a oferta, cada vez mais os caçadores têm de pagar para ter acesso a propriedades particulares."
Em contraste, a propriedade de Coffee Creek está aberta, sem nenhum custo, para todos aqueles que ali queiram caçar, o que significa que é bem movimentada - e isto em praticamente todos os dias nos três meses da temporada de caça ao faisão em Montana. "Recebemos gente de 41 estados americanos e de uma província canadense", comenta Roberts. "Mas a área agüenta bem. Já contávamos com bons abrigos. E estamos sempre acrescentando novas fieiras de arbustos e fontes de alimentação. Isto atrai as aves. E mostra o que um pequeno grupo local consegue fazer."
Enquanto isso, de volta a Coffee Creek, Stivers e eu por fim topamos com um faisão de expressão indignada, perambulando junto a uma garagem de trator no centro da propriedade. Nenhum de nós estava armado, mas o exuberante macho mesmo assim saiu correndo, deixando marcas na neve e desaparecendo no mato denso - durante um segundo estivera presente, depois mais nada, exatamente como a Square Butte aparecendo e desaparecendo no horizonte. O vento sacudiu os arbustos de zimbro, a Square Butte reluziu à luz amena, e Stivers entoou uma espécie de bênção: "A gente traz o cão e passa algumas horas por aqui. Fazemos uma boa caminhada. Há muita calma. Vemos a velha Square Butte saindo do meio das nuvens lá no alto, e conseguimos abater uma ou outra ave - nos alimentamos bem, fazemos exercício e retomamos o contato com todos aqueles que já estiveram aqui. Também eles percorreram essas colinas atrás de animais selvagens, exatamente como estamos fazendo. Encontramos as pontas de suas flechas por todos os lados. Eles também eram caçadores".
DE ACORDO COM ALGUNS CIENTISTAS, os seres humanos ainda estão programados para caçar, pois nossa espécie vem se dedicando a essa atividade por muito mais tempo do que estamos cultivando a terra, escrevendo poesia ou vendendo coisas por telefone. Desde que surgiram nas savanas africanas, nossos ancestrais hominídeos passaram a caçar há mais de um milhão de anos, matando outras criaturas para garantir a própria sobrevivência.
"Todos nós éramos caçadores até o Neolítico, ou seja, até cerca de 10 mil anos atrás", explica o antropólogo Wade Davis, um explorador-residente da National Geographic Society que estudou culturas venatórias tradicionais desde o Ártico, passando pela Amazônia, até a Oceania. "Todos os dias, tínhamos de matar aquilo que mais amávamos, os animais que tornavam possível a nossa vida. Este foi o primeiro mistério - e, na minha opinião, também a base da religião, que foi uma tentativa de explicar o que acontece depois que morremos."
Nas culturas tradicionais estudadas por Davis, o caçador habilidoso é uma figura respeitada, cujo relacionamento com a presa transcende o mundo material. "Há um forte sentimento de ligação entre as pessoas e suas presas", diz ele. "Isto está presente em todos os níveis da caçada. Se não respeitamos a presa, se violamos os tabus, então não conseguimos caçar. E se não conseguimos caçar, não temos o que comer. Em nossa própria cultura, à medida que nos tornamos mais urbanos, perdemos essa conexão com o mundo natural. Quanto mais nos afastamos do mundo selvagem, menos somos capazes de entendê-lo."
A compreensão do valor da caça não se perdeu no minúsculo (são 851 habitantes) vilarejo de Gardiner, em Montana, onde os visitantes são recepcionados por uma placa na qual foi entalhada uma galhada de alce, e onde um anúncio do Yellowstone Village Inn promete: "Caçadores Bem-Vindos - Alces Não Pagam Nada". Milhares de alces pastam nos campos em torno do vilarejo, uma área de invernagem crucial para muitos animais da manada do Yellowstone.
Essa comunidade isolada vem dependendo dos apaixonados por atividades ao ar livre desde que, em 1903, foi colocada no mapa graças ao presidente Theodore Roosevelt, um caçador fanático e um dos pioneiros do movimento conservacionista americano. Em abril daquele ano, ele desfrutou de algumas semanas de solidão no Parque Nacional de Yellowstone - na época ele já defendia a preservação de florestas e da caça de grande porte, como o bisão, o alce e outros espécies, que estavam em declínio.
"Todo homem que aprecia a majestade e a beleza das regiões e da fauna selvagens ... deveria dar as mãos aos homens de visão que lutam para preservar nossos recursos materiais, no esforço de poupar nossas florestas e nossos animais, aves e peixes que podem ser caçados ... de uma destruição desenfreada", escreveu a respeito de sua estada no Yellowstone. Como outros esportistas da época, Roosevelt estava preocupado com a perda de peixes e animais de caça, e decidiu fazer algo enquanto estava na presidência dos Estados Unidos. Quando entregou o cargo, havia ajudado a transformar mais de 80 milhões de hectares em novos parques nacionais, refúgios de aves, florestas nacionais, reservas de caça federais e outros tipos de terras protegidas.
Cerca de um século depois, Roosevelt sem dúvida ficaria satisfeito ao ver as manadas de alces ainda deixando lentamente o parque em janeiro, cruzando o rio Yellowstone de margens geladas e subindo para a nevada área de invernagem nas cercanias de Gardiner.
A temperatura não se movia da marca dos 17 graus negativos, e as estrelas reluziam nítidas e brilhantes às quatro da manhã no dia 7 de janeiro, quando Warren Johnson deu a partida no motor de sua caminhonete Dodge e descemos pela estrada Jardine no rumo de Gardiner, parando de tantos em tantos quilômetros a fim de verificar os rastros dos alces na neve. Johnson, um conhecido fornecedor de equipamento de caça nessa região de Montana, é um desses sujeitos grandes e calados que, nas semanas em que são mais loquazes, não chegam a pronunciar nem 50 frases. Depois de algumas paradas, não consegui mais agüentar o silêncio.
"E aí, algum touro?", perguntei.
"É", respondeu Johnson.
"Muitos?"
"Bem, parece que uns cem alces passaram por aqui esta noite - talvez haja três ou quatro machos grandes entre eles", disse Johnson, enquanto avaliava as pegadas iluminadas por sua lanterna. "Estão seguindo para além daquela serra", continuou, virando-se lentamente para apontar uma sombra mais escura no horizonte noturno. "É para lá que vamos hoje."
De volta à fazenda de Johnson, a Hells-A-Roarin', trocamos a caminhonete por cavalos e, enquanto as novas nuvens de neve passavam diante da Lua, iniciamos uma lenta escalada pela Floresta Nacional de Gallatin. Johnson ia na dianteira; seguido de Ron Harris, um especialista em canalizações de Cashmere, Washington; seu companheiro de caçadas, Mike Strutzel, também de Washington; dois outros guias de Montana; e, por último, uma figura protegida por tantas camadas de roupa que mais parecia uma versão montada do boneco da Michelin. Um dos guias tinha a tarefa de cuidar do boneco da Michelin, que várias vezes durante a manhã teve de ser resgatado de montes de neve e colocado de volta em sua sela, uma ajuda que o deixou eternamente grato. Como Strutzel viera para fazer companhia a Ron Harris, este na realidade era o único dentre os seis que iria caçar.
Em agosto, Harris conseguira uma das raras permissões de final de temporada para abater um alce, arrumara emprestados os 3 mil dólares para a viagem e, nessa manhã, estava afinal conduzindo seu cavalo pela encosta de pinheiros com neve poeirenta até o peito. A um sinal de Johnson, Harris desmontou, ajoelhou-se na neve e mirou em um alce macho, que havíamos localizado e flanqueado enquanto cavalgávamos por uma crista montanhosa. Antecipando o estrondo do rifle de Harris, agarrei as rédeas do meu cavalo no exato momento em que vi Warren Johnson cancelar com um gesto o disparo. "Esse até que era bom", explicou Johnson mais tarde, "mas vamos topar com um melhor ainda."
Na manhã seguinte, acordamos na escuridão, nos acomodamos nas selas e voltamos às montanhas, onde um magnífico alce cinco-por-seis (com cinco e seis pontas em cada lado da galhada) se apresentou a Harris. Mas assim que este apertou o gatilho, o touro mudou de lugar e saiu ileso. O alce desapareceu trotando e cavalgamos em meio a um silêncio pesado durante toda a manhã.
Em seu terceiro dia de cavalgada, depois de eu ter partido, Ron Harris conseguiu afinal alvejar seu touro, um macho com 340 quilos no auge de sua forma, com uma pesada armação de seis-por-seis. "Se você nunca tivesse visto um homem chorar, isto quase teria acontecido agora", disse-me Harris ao telefone naquele mesmo dia. "Nunca me senti tão feliz." O grande alce voltou com Harris e Strutzel para Washington, onde se transformaria em incontáveis filés e salsichas. E a cabeça do animal ocuparia um lugar de honra na sala de troféus de Harris.
Ele tem algo em comum com seus ancestrais europeus, que decoraram as paredes da caverna de Chauvet com requintadas pinturas de renas, bisões, ursos e outros animais reverenciados e celebrados por sua força mágica. Embora isto tenha ocorrido há mais de 30 mil anos, o antropólogo Wade Davis reconhece um vínculo entre essas pinturas parietais e os atuais troféus de caça: "A conexão é direta".
SEJA QUAL FOR O VÍNCULO ESPIRITUAL entre o caçador e a presa, não há nenhum mistério no vínculo entre caçada e prosperidade em um vilarejo como Gardiner que, para sobreviver no inverno, depende dos alces do Yellowstone e dos caçadores que perseguem os alces. Quando estes prosperam, o mesmo se dá com o barbudo Don Maroney, o irritável dono do bar Two Bit Saloon, à beira da estrada 89, e cuja atmosfera sombria faria com que o pintor da caverna de Chauvet se sentisse em casa.
"É uma tristeza isso", comentou Maroney, contemplando o bar vazio na tarde de inverno. "Quando era alta a quantidade de animais na manada, tínhamos até 3 mil caçadores em cada temporada. E eles vinham aqui tomar uma cerveja, passar a noite no motel, encher o tanque e gastar dinheiro. Agora tudo isso é coisa do passado." Parecia que ele tinha razão. Lá na estrada, neons vermelhos anunciando "VAGAS" piscavam em todos os motéis do lugar, os estacionamentos estavam vazios, e havia uma placa de venda num dos três postos de gasolina em Gardiner. Os restaurantes estavam às moscas. Alguns poucos caçadores com ar de cansaço ainda podiam ser vistos pelo povoado, mas sem dúvida o número deles havia diminuído muito, refletindo uma redução na manada de alces do parque Yellowstone. Desde o recente ápice de 19.045 animais em 1994, o número de alces caíra para apenas 9.215 espécimes em 2006.
Nas rodinhas de Gardiner, a responsabilidade desse declínio era atribuída aos caçadores - não aos bípedes com coletes alaranjados, mas aos quadrúpedes de pêlos longos, ou seja, aos lobos. Estes predadores extremamente hábeis, reintroduzidos no Parque Nacional de Yellowstone entre 1995 e 1997, estavam fazendo a festa. Alimentada por abundantes proteínas de alce, a população lupina deu um salto: os 41 animais que formavam a colônia inicial se transformaram em cerca de 380 lobos.
"Esses lobos passam o tempo todo caçando, ininterruptamente, sem qualquer restrição", comentou Don Laubach, que vende apitos para atrair alces e equipamento de caça em uma loja em frente ao Two Bit Saloon. "Não admira que os alces estejam sumindo."
O que fazer, então?
"Ninguém aqui quer a extinção dos lobos", esclareceu Laubach. "Mas é preciso mantê-los sob controle - talvez por algum outro predador."
É possível que isto ocorra logo. Recentemente, autoridades federais propuseram que os lobos sejam retirados das listas de espécies ameaçadas em Montana e Idaho, e isto poderia levar à permissão de caça ao lobo fora do Parque Nacional de Yellowstone. Um número menor de lobos poderia significar um aumento da população de alces e a retomada das caçadas nas áreas próximas a Gardiner.
Até lá, segundo Tom Lemke, o biólogo oficialmente responsável pela região norte de Yellowstone, o Departamento de Pesca, Fauna Selvagem e Parques de Montana irá recomendar a concessão de apenas um punhado de licenças de final de temporada, talvez 160 delas para a área de Gardiner.
"Se o número de alces aumentar e conseguirmos manter as coisas em equilíbrio", comentou Lemke, "então poderemos liberar mais licenças de caça. Sabemos que os caçadores gostariam de mais licenças - mas a manada de alces está do tamanho ideal, segundo o nosso plano de manejo."
Quantos lobos exatamente a região de Yellowstone poderia tolerar? No acalorado debate em torno da questão, é fácil esquecer a época, na década de 1990, em que o estado recrutou caçadores para reduzir a manada de alces, então considerada grande demais. Os grandes ungulados estavam morrendo de fome, e os biólogos temiam que estivessem consumindo em excesso os recursos naturais. Agora os lobos estavam se multiplicando, os alces em declínio, aumentando o nível de preocupação entre a população local. Para os responsáveis pela fauna selvagem, como Lemke, a tarefa de assegurar o equilíbrio de predadores e presas vem se tornando cada vez mais difícil.
A POPULAÇÃO HUMANA AUMENTA. Os hábitats selvagens diminuem. A longa e lenta marcha do campo para a cidade teve início logo após o final da Guerra de Secessão, em 1865. Dois cavalheiros, conhecidos meus, estavam na vanguarda dessa transição do campo para a cidade: no início do século 20, Talmadge Spurgeon Teague e James Augustus Poole largaram suas enxadas e tomaram o rumo dos vilarejos da Carolina do Norte. Porém, ainda que vivessem em ambiente urbano, guardaram suas espingardas e regularmente voltavam a se embrenhar no mato para caçar. Ambos eram conhecidos pela habilidade com as armas - sobretudo T. S. Teague, que toda sexta costumava convidar o pastor para um almoço de caça no domingo, confiante de que obteria suas aves na tarde de sábado. E as aves nunca lhe faltaram - pelo menos é assim que minha mãe lembra de seu pai. Dele herdei o amor pela vida ao ar livre; do meu outro avô, foi o amor pelos cães - e a sua gasta espingarda Ithaca de calibre 12.
De cano duplo, essa espingarda é uma espécie de relíquia, assim como o número cada vez menor de americanos que sai para caçar todos os anos. "Somos uma espécie ameaçada", comentou Steve Del Rossi, criador de cães de Nova Jersey e meu companheiro de caçadas, com quem muitas vezes partilhei tocaias na caça aos patos. Em uma recente manhã de dezembro, estávamos os dois tremendo de frio à margem do rio Chester, em Maryland, enquanto os raios solares tentavam atravessar as nuvens escuras e milhares de gansos-do-canadá grasnavam no alto em longas e ruidosas formações. Olhando para baixo em nosso esconderijo, notei que Del Rossi tinha razão: ali estavam quatro outros sujeitos brancos de meia-idade, os narizes avermelhados destacando-se na camuflagem dos pés à cabeça, todos com excesso de peso e mais de 50 anos, todos de famílias de caçadores - mas nenhum com descendentes interessados no esporte.
A quantidade de caçadores vem diminuindo nas últimas décadas. Segundo dados do Censo americano, havia 14,1 milhões de caçadores em 1991, 13 milhões em 2001 e 12,5 milhões em 2006, o que significa que representam meros 5% da população adulta do país. Embora estejam sendo formados novos caçadores, não há um número suficiente de jovens para substituir os velhos, que logo irão morrer ou aposentar suas armas. Em recentes sondagens nacionais, o nicho antes ocupado por caçadores e pescadores está sendo ocupado por um novo tipo de entusiastas do ar livre, os quais são definidos como "observadores da fauna selvagem" pelo Departamento de Pesca e Fauna Selvagem dos Estados Unidos. Esse novo grupo - abrangendo fotógrafos da natureza, observadores ambulantes ou criadores sedentários de aves - inclui cerca de 71 milhões de pessoas, mais de 30% da população adulta.
Ainda é cedo demais para se saber se esses observadores da fauna selvagem vão carrear recursos e entusiasmo suficientes para assegurar a prosperidade das espécies de caça, e isto sem falar da manutenção dos órgãos estaduais de pesca e fauna selvagem, cujo financiamento depende em grande parte dos recursos proporcionados pelas licenças de caça e pesca. "Isto é algo que nos deixa muito preocupados", disse Ed Parker, presidente da Association of Fish and Wildlife Agencies [Associação de Órgãos Oficiais de Caça e Pesca]. "E não apenas de vez em quando, mas o tempo todo."
O mesmo se dá com Ted Turner. "A caça de melhor qualidade já se transferiu para as propriedades particulares", comentou ele, prevendo que essa tendência só irá se acentuar com o crescimento demográfico. "A expectativa é que a população dos Estados Unidos ultrapasse os 400 milhões até 2050. Isto não deixa muito espaço para os animais. E vai encarecer o esporte para os caçadores."
OS VELHOS CAÇADORES FICAM MAIS BRANDOS, o entusiasmo se abatendo com a passagem dos anos. Continuam a caçar, mas com menor intensidade, talvez simplesmente devido ao vigor decrescente ou então pela empatia maior com suas presas.
"Abati patos demais quando era jovem", admitiu Thomas J. O'Connor III, um corretor de amendoim que vive em Suffolk, na Virgínia, e atualmente está empenhado em uma espécie de penitência. Nos últimos anos, O'Connor vem laboriosamente recuperando o hábitat crítico de aves aquáticas na península da Eastern Shore na Virgínia, onde no inverno bandos imensos de patos e gansos encontram alimento e abrigo em seus 300 hectares. Grande parte dessa terra será preservada em tombamentos cênicos, a fim de protegê-la do rápido avanço da mancha urbana sobre os campos e bosques em torno do cabo Charles.
O'Connor conduziu-me por uma fazenda à beira-mar circundada de brejos salgados e de fragrantes bosques de pinheiros. Nossa aproximação provocou a dispersão de centenas de patos, sobretudo marrecos-carolina e outros, que levantaram vôo das lagoas rasas criadas por O'Connor no solo negro e arenoso. "Tenho orgulho de dizer que jamais recebi um tostão da Ducks Unlimited - ao contrário dos conselhos, que foram muitos", disse.
Acompanhando as nuvens de patos que voavam em círculos, ele de repente abriu um sorriso. As aves haviam dado uma guinada, mudaram de rumo e voltaram para onde estávamos, quase que pousando em nossos pés. "Elas não conseguem se afastar muito", disse. "Sabem que aqui estão seguras, como aquelas marrecas mais adiante." Ele apontou para um aglomerado dessas pequenas aves rápidas e atarracadas. "Ali. Está vendo?"
O'Connor ficou na ponta dos pés e ficou olhando enquanto as marrecas desapareciam para além das copas das árvores, seguindo para o norte, onde logo começariam a se reproduzir.
Atualmente ele não caça muitos marrecos.
Por que não?
"Acabei me acostumando a conviver com eles."
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