Esse é o lugar em que a expectativa dos americanos sobre a terra se mostrou equivocada. Os proprietários de áreas rurais cedidas pelo governo no passado acreditavam que a chuva se seguiria à passagem do arado. Nas pastagens ocidentais do Kansas, de Nebraska e das duas Dakotas (do Sul e do Norte), eles viram que o projeto era falso. Assim, por quase um século, assistimos ao colapso de pequenas cidades afastadas dos grandes centros, uma a uma, como folhas outonais caindo durante as friagens de outubro. Na maior parte dos Estados Unidos, prédios abandonados sinalizam mudanças e deslocamentos das oportunidades econômicas. Mas o significado disso é outro nas chamadas High Plains, ou "Terras Altas", termo genérico que designa uma área plana e elevada dos estados americanos de Dakota do Norte e do Sul, Nebraska, Iowa e Kansas. Ali, tais ruínas indicam que algo entre a terra e o céu conspirou contra os colonos.
Sucessivas ondas humanas soçobraram nas High Plains de Dakota do Norte. Índios em seus cavalos viveram por mais de um século um sonho feito de mobilidade e manadas de búfalos, antes que o Exército e os caçadores destruíssem seu mundo. No início do século 19, floresceram os entrepostos do comércio de couro e pele até que animais e comerciantes sumiram de vista. Em três anos, nos anos 1880, todo um reino pecuário virou cemitério de bisões, sob geadas e secas que jogaram todos de volta à realidade.
Na virada do século 20, as ferrovias atraíram colonos, sobretudo, noruegueses e alemães, para dentro do vazio, com promessas lastreadas de terras cedidas pelo governo. Cidades brotaram por toda a parte nessa região isolada e semi-árida, a qual um historiador local denominou de "O Grande Equívoco", com base na Grande Depressão (1929) e nas tempestades de areia dos anos 1930 que levaram as fazendas a falir.
No oeste de Dakota do Norte, é preciso hoje cultivar uma área de ao menos 1,2 mil hectares de trigo para conseguir sobreviver. A terra está juncada de cidades mortas e cozinhas vazias, com paredes que alguém resolveu pintar de azul-claro.
O cinqüentão Greg Bjella não se lembra dos moradores da casa com a cozinha pintada daquela cor, sintoma de quase proposital amnésia coletiva em Dakota do Norte. Ele mora perto dali, no lote ganho por seu avô. Epping, 75 almas, foi sede da metalúrgica de sua família desde 1906, um negócio que Bjella ainda toca nos meses quentes do ano. "Outro dia, um bebê nasceu", diz ele, "um fato que, tenho certeza, não acontecia há 20 anos." Uma década atrás, rajadas de vento derrubaram o frontispício da metalúrgica, levando Bjella a reconstruí-lo. "Quando eu me for desta para melhor, aquilo vai ter de se agüentar por conta própria."
Essa é a questão na zona rural de Dakota do Norte: o senso de que tudo está em declínio, em ruínas. Tamanha decadência, é curioso, ocorre em meio a uma aparente prosperidade: o petróleo floresce, os preços do trigo batem recordes. Ainda assim, pequenas e médias propriedades não são mais sustentáveis. Com o aumento da área das fazendas, a terra vê-se salpicada de milionários franciscanos vivendo na vastidão solitária das planícies, cercados de comunidades que o vento levou.
Dakota do Norte é um dos estados americanos mais frios e sujeitos a vendavais. Por duas vezes, os legisladores pensaram em mudar o nome do estado simplesmente para Dakota, para limar a imagem friorenta associada à palavra "norte". A população do estado estabilizou-se em torno de 600 mil habitantes, graças, sobretudo, ao crescimento de suas maiores cidades - Fargo, Grand Forks, Mandan e Bismarck. Mas, no campo, a população tem minguado de forma incessante. Assim, dinheiro e prosperidade convivem com a sensação de se viver num mundo esvanecente.
A uns 3 quilômetros de Epping, há uma casa de concreto com janelas amarelas. Diz Bjella que um velho solteirão vivia ali, até que, um dia, a casa original, de madeira, pegou fogo, e o sujeito a reconstruiu com concreto para torná-la imune a incêndios. O telhado já se foi quase todo, e os dois cômodos estão nus de mobília e recobertos de reboco caído. O vento jorra pelas janelas.
Greg Bjella lembra-se de que todos os dias o velho seguia a pé pelos trilhos os quase 4 quilômetros até a cidade, ano após ano. Um dia, ele aparentemente não ouviu o trem e foi morto. Bjella faz uma pausa, deixa o som etéreo de suas palavras flutuar no ar com sua sugestão de suicídio. Auto-aniquilamento, aliás, não é assunto tabu em Dakota do Norte. As pessoas listam com facilidade casos do gênero. Certa vez uma mulher topou com um livro de registro de falecimentos compilados nas primeiras décadas do século 20. Diz ela que se nota ali um número extraordinário de pessoas mortas por trem.
No entanto, o solo em si fervilha de vitalidade, com a vastidão das plantações de trigo e dos rebanhos de gado que substituíram os búfalos. Ao sul do rio Missouri, as chamadas Badlands - "Terras Ruins", nome dado pelos indígenas - designam uma região escavada por águas e ventos ao longo de milênios, num labirinto de penhascos, desfiladeiros, picos e gargantas em que só vivem abutres em busca da carniça de lebres.
A terra aparenta engolir quem se aventura em seu interior. Tudo parece promissor, a princípio. O jovem Teddy Roosevelt, vindo de Nova York para uma temporada de caça ao búfalo em 1883, resolveu, depois de alguns dias, que ficaria rico como criador de gado, e ofereceu 14 000 dólares, uma fortuna na época, a dois homens que ele mal conhecia para que dessem início a seu grandioso e fracassado projeto. O marquês de Mores, um francês de família nobre, planejou nesse mesmo ano um império de processamento de carne, e acabou perdendo as calças. Deixou, porém, uma cidade, Medora, e um castelo numa colina.
O condado de Slope, ao sul, possui um pouco mais de 700 habitantes e uma cidade, Amidon, que abriga o centro administrativo da comarca, com 24 almas. A única outra cidade próxima, Marmarth, que já foi importante base ferroviária, com 1,3 mil habitantes, tem hoje 126 pessoas. Patti Perry, responsável pelo desenvolvimento econômico da comunidade, pertence à terceira geração de sua família a viver no lugar. Sentada no bar e café local, ela tenta explicar: "A pior parte de se viver numa cidade em declínio é achar um jeito de deter isso. As coisas acontecem com tanta lentidão que você não se dá conta do processo, no começo. São cinco que vão embora num ano, seis no ano seguinte. Aí, num belo dia, você acorda e se pergunta o que foi que aconteceu".
Aconteceu que as pessoas passaram nos cobres suas propriedades e se mudaram para algum lugar de clima mais quente e ameno. O resto da turma vai envelhecendo e morrendo. Patti pergunta a um cara de saída do bar se ele vai a um certo velório. O sujeito responde: "Vou não. Já estou bem de funerais por esta semana".
A freqüência à igreja mingua e as congregações vão se tornando mistura de várias denominações, até que as portas dos templos se fecham. Às vezes, os fiéis remanescentes decidem pôr fogo no templo para dar cabo do sofrimento.
Tom Rafferty, de 59 anos, pertence à terceira geração da sua família a viver em Havelock, e virou agora o dono da cidade. Ele e a mulher são seus últimos habitantes. O lugar já teve 250 moradores, um depósito de madeira, currais, ferrovia, dois bancos, três silos, um armazém com mesa de bilhar e horários flexíveis para venda de bebidas alcoólicas. Em torno do burgo, havia sete minas de carvão. Ao folhear as páginas de 1908 do diário do avô, Rafferty notou que "um monte de registros se refere ao vento". "Acontecia muito suicídio", diz ele. "Acho que, em muitos casos, era problema financeiro, gente que se viu na lona. Em outros, era solidão mesmo."
No porão de uma casa de outra cidade, um texugo está morto. No chão da sala, há um livro artesanal, em cuja capa o título escrito a lápis de cera diz: "MEU CHÁ DE COZINHA". Data: 9 de junho de 1951. É todo ilustrado com imagens recortadas de revistas, a primeira delas, de uma jovem loira de batom vermelho, com a inscrição, feita a mão com caneta-tinteiro: "A noiva".
Em outra casa, vêem-se roupas penduradas nos armários e um gato morto no chão, ao lado de um livro de presença de velório, Fé Inquebrantável, que relaciona os visitantes e também as flores que ofertaram à família do falecido.
O vento sopra e lá fora duas figuras dançam no campo. Parecem lobos, vistos de binóculo, mas poderiam ser cães. Os alces também voltaram à paisagem, assim como o puma americano. Dakota do Norte tem um jeito meio selvagem.
Melvin Wisdahl vai fazer 83 anos e vive com sua mulher, Morrene, em Corinth, cidade com seis habitantes. Quando era garoto, havia 75. Ele passou a vida em meio a trigo, trabalho e política como apoiador de um grupo populista do campo, a Liga dos Não-Partidários, que teve influência no estado por décadas. Wisdahl é um homem sólido, com sua camisa de flanela e seu jeans rasgado, e mãos que denunciam uma vida de trabalho. Seus dois filhos agora cuidam de uns 800 hectares de trigo, canola e outras culturas, além de um pouco de gado. Wisdahl, porém, acha que, depois deles, com os negócios no campo exigindo áreas maiores para garantir a sobrevivência dos proprietários, tudo irá por água abaixo. "A economia e a seca tocaram todo mundo para fora daqui", diz ele mansamente. "A seca foi no fim dos anos 1930. Depois veio a guerra, e todo mundo foi trabalhar na indústria armamentista."
Ele contenta-se em cultivar tabaco para cachimbo em seu jardim, embora nunca tenha fumado, e lidar com dois alambiques, apesar de não beber. A leitura também o ocupa, e ele às vezes galga o outeiro ao lado de sua casa, onde obtém sinal no celular, e liga para a revista O Populista Progressista, do Texas, para dar seus palpites. Wisdahl também participa do conselho de um banco. É um sobrevivente. "Dá pra imaginar os traumas que os primeiros habitantes sofreram aqui", diz ele. "Lembro-me de minha mãe dizendo que nunca se acostumou com o vento. No vale norueguês de onde ela veio, não ventava."
Já sua mulher, Morrene, recorda-se do poço em que o pessoal dela buscava água - a água congelava no inverno. Ela conta como, no verão, o poço via-se cercado de hortelã-do-campo e botões-de-ouro amarelos, e a lembrança a faz sorrir. De repente, as boas coisas que atraíram os primeiros colonos enchem a atmosfera do ambiente. "Eu vi Corinth no auge", relata Wisdahl, "e vi sua dissolução. Havia um ferreiro, dois armazéns, depósito de madeira, salão de bilhar, hotel, loja de ferragens, banco, salão de baile - o maior, entre todas as cidades da região, para a qual os durões vinham para se degladiar a noite toda."
A cidade, Melvin, Morrene - aí está a quintessência da América. Só que a essência está evaporando. Melvin e seus irmãos, mais seu falecido amigo Oscar, serviram na Segunda Guerra Mundial. Nostálgico, ele evoca imagens do conflito: "Vi garotos na posição fetal, com receio de se mexer, mijando nas calças de medo".
Na casa vizinha, há um uniforme da infantaria pendurado num armário, com o bibico de campanha perfeitamente dobrado sobre o ombro. Às vezes, no inverno, a neve se infiltra ali.
As coisas estão chegando ao fim em Dakota do Norte, como o simples resultado de uma realidade econômica. Em Alkabo, a escola pública de dois andares ainda está de pé, cheia de troféus, instrumentos musicais e livros. Mas os estudantes se foram há muito tempo. A quadra de basquete ao lado se chama "A Quadra dos Sonhos".
Ao sul fica Writing Rock, onde duas rochas exibem desenhos pré-históricos. Os indíos diziam que elas podiam predizer o futuro. Mas, aí, vieram pesquisadores e levaram uma delas embora. Desde então, as pedras têm permanecido caladas.
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