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A travessia do atlântico havia sido uma aventura repleta de aflições e sofrimentos. Antigas e mal equipadas, as naus e fragatas portuguesas viajaram apinhadas de gente. O excesso de passageiros e a falta de saneamento favoreceram a proliferação de pragas. No navio Alfonso de Albuquerque, em que viajava a princesa Carlota Joaquina, mulher do príncipe regente, uma infestação de piolhos obrigou as senhoras nobres a raspar o cabelo e a lançar suas perucas ao mar. As cabeças carecas foram untadas com banha de porco e pulverizadas com pó anti-séptico. Isso resultou num dos episódios mais pitorescos da história da corte no Brasil. Para proteger a cabeça careca, ao desembarcar no Rio de Janeiro, Carlota, as filhas e outras damas da corte usavam turbante. Ao ver as princesas assim cobertas, as mulheres do Rio de Janeiro acharam que aquela seria a última moda na Europa. Dentro de pouco tempo, quase todas elas passaram a cortar o cabelo e a usar turbante para imitar as nobres portuguesas.
Começava ali o mais notável período de transformações no Rio de Janeiro. A chegada da corte foi o encontro de dois mundos até então estranhos e distantes. De um lado, uma monarquia européia, envergando casacas de veludo, sapatos afivelados, meias de seda, perucas e galardões, roupas pesadas e escuras demais sob o Sol escaldante dos trópicos. De outro, uma cidade colonial e quase africana, com dois terços da população formada por negros, mestiços e mulatos, repleta de traficantes de escravo, tropeiros, negociantes de ouro e diamantes, marinheiros e mercadores das Índias. "Igrejas, mosteiros, fortes e casas de campo, faiscantes de brancura, coroam cada colina e enfeitam as fraldas das suas alturas simétricas e caprichosas, enquanto que, fazendo fundo, uma cortina de mata a tudo ensombra", anotou o comerciante inglês John Luccock ao chegar ao Rio de Janeiro em junho de 1808.
Na verdade, o brasil não existia 200 anos atrás. Pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. O Brasil era apenas uma grande fazenda extrativista de Portugal, sem nenhuma noção de identidade nacional. As diferentes províncias eram mais ou menos autônomas, sem comércio ou qualquer outra forma de relacionamento, e tinham como ponto de referência apenas o governo português, sediado em Lisboa, do outro lado do Atlântico.
Nem mesmo a expressão "brasileiro" era reconhecida como sendo a designação das pessoas que nasciam no Brasil. Panfletos e artigos publicados no começo do século 19 discutiam se a denominação correta seria brasileiro, brasiliense ou brasiliano. O jornalista Hipólito José da Costa, dono do jornal Correio Braziliense, publicado em Londres, achava que as pessoas naturais do Brasil deveriam se chamar de brasilienses. Para ele, brasileiro seria o português ou o estrangeiro que aqui se estabelecera. Brasiliano, o indígena.
Tudo isso mudaria com a vinda da corte. Coube a D. João e seu ministério criar uma nação a partir do nada. As novidades começaram a aparecer num ritmo alucinante e teriam grande impacto no futuro do país. Na escala em Salvador, em janeiro, a decisão mais importante foi a abertura dos portos. Na chegada ao Rio de Janeiro, a concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira no Brasil. A medida, anunciada em 1o de abril de 1808, revogava um alvará de 1785, que proibia a fabricação de qualquer produto na colônia. Combinada com a abertura dos portos, representava na prática o fim do sistema colonial. O Brasil libertava-se de três séculos de monopólio português e integrava-se ao sistema internacional de produção e comércio.
A cidade que acolheu a família real portuguesa era uma esquina do mundo, na qual praticamente todos os navios que partiam da Europa e dos Estados Unidos paravam antes de seguir para a Ásia, a África e as terras recém-descobertas do Pacífico Sul. Uma viagem da Inglaterra ao Rio de Janeiro durava entre 55 e 80 dias. Do Rio até a Cidade do Cabo, na África do Sul, eram mais 30 a 50 dias. Até a Índia, de 105 a 150 dias. Para a China, de 120 a 180 dias. Até a Austrália, de 70 a 90 dias. Protegidas do vento e das tempestades pelas montanhas, as águas calmas da baía de Guanabara serviam como abrigo ideal para reparo das embarcações e reabastecimento de água potável, charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. "Nenhum porto colonial do mundo está tão bem localizado para o comércio geral quanto o do Rio de Janeiro", ponderou o viajante John Mawe. Era também o maior mercado de escravos das Américas. Seu porto vivia congestionado de navios negreiros que atravessavam o Atlântico, vindos da África. Segundo cálculos do historiador Manolo Garcia Florentino, nada menos que 850 mil escravos tinham passado pelo porto do Rio no século 18, o que representava metade de todos os negros cativos trazidos ao Brasil nesse período.
Segundo o inglês Luccock, a cidade teria naquela época 4 mil residências, com 15 moradores, em média, cada uma. O detalhista Luccock dividiu a população da seguinte forma:
- 16 mil estrangeiros
- mil pessoas ligadas à corte de D. João
- mil funcionários públicos
- mil que residiam na cidade mas tiravam seu sustento das terras vizinhas ou dos navios
- 700 padres
- 500 advogados
- 200 profissionais que praticavam a medicina
- 40 negociantes regulares
- 2 mil retalhistas
- 4 mil caixeiros, aprendizes e criados de lojas
- 1 250 mecânicos
- 100 taberneiros, "chamados de vendeiros"
- 300 pescadores
- mil soldados de linha
- mil marinheiros do porto
- mil negros forros (libertos)
- 12 mil escravos
- 4 mil mulheres chefes de família.
A população se completava com cerca de 29 mil crianças, quase a metade do total.
Observada do mar enquanto os navios se aproximavam do porto, era um vilarejo tranqüilo, perfeitamente integrado ao esplendor da natureza que o cercava. De perto, a impressão logo mudava. Os problemas eram a umidade, a sujeira e a falta de bons modos dos moradores. "A limpeza da cidade estava toda confiada aos urubus", escreveu o historiador Oliveira Lima. Alexander Caldcleugh, um estrangeiro que viajou pelo Brasil entre 1819 e 1821, ficou impressionado com o número de ratos que infestavam a cidade. "Muitas das melhores casas estão de tal forma repletas deles que durante um jantar não é incomum vê-los passeando pela sala", afirmou.
Sob o calor úmido dos trópicos, imperavam a preguiça e a falta de elegância no modo de vestir-se e comportar-se. Emanuel Pohl, naturalista que em 1817 acompanhou ao Brasil a princesa Leopoldina, recém-casada com o futuro imperador Pedro I, observou que os homens viviam de chinelo, calça leve e jaqueta de chita. As mulheres, envoltas em rosários de onde pendiam santinhos, passavam a maior parte do dia com camisa simples e saia curta. "Em ditoso far niente, costumam sentar-se numa esteira junto às janelas, de pernas cruzadas, o dia inteiro", anotou Pohl.
Convidado para um jantar na casa de uma família rica, o inglês Luccock surpreendeu-se ao descobrir que cada pessoa deveria comparecer com a própria faca, "em geral larga, pontiaguda e com cabo de prata". À mesa, observou que "os dedos são usados com tanta freqüência quanto o próprio garfo". Mais que isso, era comum uma pessoa provar, com as mãos, do prato de outro conviva. "Considera-se como prova incontestável de amizade alguém servir-se do prato de seu vizinho; e, assim, não é raro que os dedos de ambos se vejam simultaneamente mergulhados num só prato", anotou. A carne fresca era uma raridade. Vinha de longe, de até mil quilômetros de distância. Viajando por estradas precárias, em boiadas que desciam de Minas Gerais ou do vale do Paraíba, muitos bois morriam pelo caminho, de fome ou de cansaço. Situado perto do centro do Rio, o matadouro era local "da máxima sujeira", segundo Luccock. A carne de porco era vendida, igualmente, "em estado bastante doentio". Por essa razão, consumia-se principalmente carne-seca, que chegava de muito longe, depois de tratada com sal e curada ao Sol.
Em 1803, o oficial da Marinha britânica James Tuckey deixou um registro curioso sobre as mulheres cariocas: "Seus olhos, levemente puxados, negros, grandes, plenos e brilhantes dão um certo grau de vivacidade à sua tez morena e conferem alguma expressão à sua fisionomia. Trata-se, na maior parte das vezes, da manifestação de uma vivacidade animal, temperada com o toque leve e singelo da sensibilidade". Tuckey, porém, fazia uma ressalva: "As mulheres brasileiras têm, entre outros, o péssimo hábito de escarrar em público, não importando a hora, a situação ou o lugar. Tal hábito […] forma um poderoso obstáculo ao império do charme feminino".
A saúde era absurdamente precária. "As operações mais fáceis costumavam ser praticadas pelos barbeiros sangradores", conta o historiador Oliveira Lima, baseando-se nos relatos do inglês Luccock. Em 1798, dez anos antes da chegada da corte, a Câmara do Rio de Janeiro havia proposto a um grupo de médicos um programa para combater e erradicar as moléstias da cidade. O plano incluía um levantamento dessas doenças. A relação, feita pelo médico Bernardino Antônio Gomes, é espantosa: "Tenho por moléstias endêmicas desta cidade sarna, erisipelas, empigens, boubas, morphéa, elefantíase, formigueiro, bicho dos pés, edemas de pernas, hidrocele, sarcocele, lombrigas, ernias, leuchorréa, dysmnorréa, hemorróidas, dispepsia, vários efeitos convulsivos, hepatites e diferentes sortes de febres intermitentes". O pesquisador carioca Nireu Cavalcanti encontrou no Arquivo Nacional documentos que ilustram como eram a saúde e a medicina no Rio na época de D. João VI. São inventários post mortem de dois médicos que relacionam os bens deixados pelos falecidos. Um deles, do cirurgião-mor Antônio José Pinto, morto em 1798, inclui uma assustadora relação de "instrumentos cirúrgicos": um serrote grande, um serrote pequeno, uma chave de dentes, duas facas retas, duas tenazes, uma unha de águia, dois torniquetes, uma chave inglesa e uma tesoura grande.
Devido à pouca profundidade do lençol freático, a construção de fossas sanitárias era proibida. A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos, que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas. No percurso, parte do conteúdo, repleto de amônia e uréia, caía sobre a pele e, com o tempo, deixava listras brancas sobre suas costas. Por isso, esses escravos eram conhecidos como "tigres".
Outro aspecto que despertava a curiosidade dos visitantes era o número de negros, mulatos e mestiços nas ruas. Os escravos faziam todo tipo de trabalho manual. Entre outras atividades, eram barbeiros, sapateiros, moleques de recado, fazedores de cestas e vendedores de capim, refrescos, doces, pão-de-ló, angu e café. Também carregavam gente e mercadorias. Pela manhã, centenas deles iam buscar água no chafariz do aqueduto da Carioca, que era transportada em barris semelhantes aos usados para levar os excrementos até as praias no fim da tarde.
O príncipe regente iria morar num palácio amplo e agradável, situado no atual bairro de São Cristóvão, perto de onde ficam hoje o morro da Mangueira e o estádio do Maracanã. O palácio foi presente de um grande traficante de escravos da época ao príncipe. Sua mulher, a princesa Carlota Joaquina, de quem vivia separado, preferiu ficar numa chácara na praia de Botafogo. Mais complicado foi encontrar habitação para os milhares de acompanhantes da corte, recém-chegados à cidade que ainda era relativamente pequena. Por ordem do conde dos Arcos, criou-se o famigerado sistema de "aposentadorias" pelo qual as casas eram requisitadas para uso da nobreza. Os endereços escolhidos eram marcados na porta com as letras PR, iniciais de Príncipe Regente, que imediatamente a população começou a interpretar como "Ponha-se na Rua".
Com a chegada da família real, uma bomba populacional abalou a cidade. Entre 1808 e 1821, a área urbana triplicou com a criação de novos bairros e freguesias. A população dobrou e o número de escravos triplicou, de 12 mil para 36 182. O tráfego de animais e carruagens ficou tão intenso que foi preciso criar leis para discipliná-lo. A rua Direita tornou-se, a partir de 1824, a primeira a ter numeração e trânsito organizado pelo sistema de mão e contramão. Pode-se imaginar o que foi isso numa cidade que já em 1808 não tinha espaço, infra-estrutura nem serviços para receber os moradores que chegavam de Lisboa.
A criminalidade atingiu índices altíssimos. Roubos e assassinatos aconteciam a todo momento. No porto, navios eram alvos de pirataria. Gangues percorriam as ruas atacando as pessoas a golpes de faca e estilete. Oficialmente proibidos, a prostituição e o jogo eram praticados à luz do dia. "Nesta cidade e seus subúrbios, temos sido muito insultados pelos ladrões", relata o arquivista real Luiz Joaquim dos Santos Marrocos numa das cartas ao pai, que ficara em Lisboa.
A maioria da população andava armada. O cônsul inglês James Henderson surpreendeu-se com o número de pessoas que portavam facas escondidas nas mangas dos capotes, "as quais usam com grande destreza". Pouca gente se arriscava a sair sozinha à rua depois do anoitecer. Pedradas eram um tipo de agressão comum - o equivalente às balas perdidas de hoje. Em outubro de 1817, a mulher do embaixador americano Thomas Sumpter foi atingida por uma pedra no olho enquanto estava dentro de sua carruagem na rua do Ouvidor. Num outro caso, durante um concerto no teatro São João, uma pedra atingiu o ator Manuel Alves, pondo fim ao espetáculo.
A tarefa de colocar alguma ordem no caos foi confiada por D. João ao advogado Paulo Fernandes Viana. Desembargador e ouvidor da corte, nascido no Rio de Janeiro e formado pela Universidade de Coimbra, Viana foi nomeado intendente-geral da polícia pelo alvará de 10 de maio de 1808, cargo que ocupou até 1821, o ano de sua morte. Era "um agente civilizador" dos costumes no Rio de Janeiro. Cabia a ele transformar a vila colonial, provinciana, inculta, suja e perigosa em algo mais parecido com uma capital européia, digna de sediar a monarquia portuguesa. Sua missão incluía aterrar pântanos, organizar o abastecimento de água e comida e a coleta de lixo e esgoto, calçar e iluminar as ruas usando lampiões a óleo de baleia, construir estradas, pontes, aquedutos, fontes, passeios e praças. Ficou também sob sua responsabilidade policiar as ruas, expedir passaportes, vigiar estrangeiros, fiscalizar as condições sanitárias dos depósitos de escravos e providenciar moradia para os habitantes que a cidade recebeu com a chegada da corte.
Os agentes da polícia de Viana eram implacáveis e truculentos. O mais famoso deles foi o major Miguel Nunes Vidigal. Era o equivalente, 200 anos atrás, ao Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite. Comandante da nova Guarda Real, Vidigal tornou-se o terror da malandragem carioca. Ficava à espreita nas esquinas ou aparecia de repente nas rodas de capoeira ou nos batuques em que os escravos se confraternizavam bebendo cachaça até tarde da noite. Sem se importar com qualquer procedimento legal, mandava que seus soldados prendessem e espancassem todo o participante desse tipo de atividade - fosse um delinqüente ou apenas um cidadão comum que estivesse se divertindo. Em lugar do sabre militar, os soldados de Vidigal usavam um chicote de haste longa e pesada, com tiras de couro cru nas pontas. O major também comandou vários assaltos a quilombos montados por escravos fugitivos nas florestas ao redor do Rio de Janeiro. Em recompensa por seus serviços, Vidigal recebeu de presente dos monges beneditinos, em 1820, um terreno ao pé do morro Dois Irmãos. Invadido por barracos a partir de 1940, o terreno está hoje ocupado pela favela do Vidigal, de onde se tem vista rara das praias de Ipanema e do Leblon.
A gazeta do rio de janeiro, o primeiro jornal publicado em território nacional, começou a circular em 10 de setembro de 1808, impressa em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra. Com uma ressalva: só imprimia notícias favoráveis ao governo. Ler os anúncios publicados na Gazeta é uma forma divertida de observar a sofisticação dos hábitos da população carioca naquela época. No começo, oferecem serviços e produtos simples, reflexo de uma sociedade colonial ainda fechada para o mundo que importava pouca coisa e produzia quase tudo que consumia.
Esses primeiros anúncios tratam de aluguel de cavalos e carroças, venda de terrenos e casas e alguns serviços básicos, como aulas de catecismo, língua portuguesa, história e geografia. Exemplo de anúncio publicado em 1808: "Vende-se um bom cavalo mestre de andar em carrinho. Quem o pretender comprar procure Francisco Borges Mendes, morador da esquina do Beco de João Baptista por cima de uma venda".
De 1810 em diante, o tom e o conteúdo dos anúncios mudam de forma radical. Em vez de casas, cavalos e escravos, passam a oferecer pianos, livros, tecidos de linho, lenços de seda, champanhe, água-de-colônia, leques, luvas, vasos de porcelana, quadros, relógios e uma infinidade de outras mercadorias importadas. Na edição de 2 de março de 1816 da Gazeta, o francês Girard se anuncia como "cabeleireiro de Sua Alteza Real a Senhora D. Carlota, Princesa do Brasil, de Sua Alteza Real a Princesa de Galles e de Sua Alteza Real a Duquesa de Algouleme". Em seguida, oferece os seguintes serviços: "Penteia as senhoras na última moda de Paris e de Londres; corta o cabelo aos homens e às senhoras; faz cabeleiras de homens e senhoras; tinge com a última perfeição o cabelo, as sobrancelhas e as suíças, sem causar dano algum à pele nem à roupa; e tem uma pomada que faz crescer e aumentar o cabelo". Em 13 de novembro do mesmo ano, Bellard, na rua do Ouvidor, número 8, avisa ter recebido "um novo sortimento de falsa e verdadeira bijuteria, chapéus para senhoras, livros franceses, vestidos e enfeites de senhoras modernas, cheiros de todos os gêneros, pêndulos, espingardas e leques".
A indumentária e os novos hábitos transplantados pela corte eram exibidos nas noites de espetáculo do teatro São João ou nas missas de domingo. Nessas ocasiões, um símbolo indiscutível de status era o número de escravos e serviçais que acompanhavam seus senhores. Os mais ricos e poderosos tinham as maiores comitivas e faziam questão de exibi-las como símbolo de sua importância social. O prussiano Von Leithold diz que até as meretrizes de primeira classe - "que não são poucas" - exibiam orgulhosas suas escoltas pelas ruas. Quem não dispunha de criados particulares os alugava para as funções dos dias santos ou missas. "É um ponto de honra apresentarem-se com um numeroso séquito. Caminham solenes, a passos medidos, pelas ruas."
Apesar do crescimento acelerado, em 1817, nove anos depois da chegada da família real, o naturalista austríaco Tomas Ender ainda registrou uma tribo de índios na localidade de São Lourenço, numa das entrâncias da baía de Guanabara, não muito distante do palácio de São Cristóvão, onde morava o rei D. João VI. Era, provavelmente, o último reduto nas imediações da capital de um Brasil sertanejo, ermo e inexplorado, que num espaço de apenas 13 anos, entre a chegada e a partida da corte, se transformou de uma colônia atrasada e ignorante num país independente. Quando a corte retornou para Portugal, em 1821, um novo país estava pronto para caminhar sozinho, sem a tutela portuguesa. O resultado foi a independência, em 1822.
Ironicamente, ao mudar o Brasil, D. João VI perdeu-o para sempre.