Vejamos as quatro esposas: Mama, Mekome, Beatrice e Ugly. Mama pode ser a matriarca mandona, mas Mekome é a favorita do maridão, e todo mundo ali sabe disso. Beatrice, bonachona e amável, não liga a mínima a essas coisas. E Ugly (a feia...) é insociável e evita a família toda. Cada mãe desdobra-se para proteger e promover sua pequena prole. Mama e Mekome têm meninos, Kusu e Ekendy, comparsas inseparáveis de traquinagens sem fim. Beatrice e Ugly têm recém-nascidos e os carregam por toda parte na floresta: Gentil, o de olhos grandes, e Bomo, o de membros compridos.
Hoje, como todos os dias, o patriarca de ombros possantes está comendo sozinho. Ninguém tem permissão para se aproximar enquanto ele almoça. É meio-dia, o calor está sufocante. Abelhas zumbem em seus ouvidos, moscas avançam na comida, mas o animal nem nota. Sentado com o ventre bojudo sobre as coxas, ele mastiga e remastiga, olhando em volta com cara de tédio.
Depois do almoço, é hora da sesta. Refastelado de comida, Kingo deita-se à sombra quente, esparrama os braços de titã, enche o peito musculoso e cai no sono instantaneamente. Mekome achega-se, jeitosa, e deita-se junto dele.
A tranqüila Beatrice começa a amamentar Gentil, a arredia Ugly nina Bomo, George acomoda-se sozinha e os meninos vão brincar. Kusu e Ekendy não querem saber de soneca. Enquanto as mães dormitam, os meio-irmãos bagunçam sem parar perto do papai roncante. Brincam de pega-pega, engalfinham-se, rolam lutando e esgoelam-se de rir. Quando a folia se acerca demais do modorrento pai, ele rosna e os moleques dão no pé, mas logo são atraídos de volta por aquele magnetismo colossal.
Quando o grão-senhor desperta de seus sonhos, leva a família a passear pela floresta.
Os meninos andam na cola dele e imitam tudo o que ele faz. As esposas vão atrás, ciumentas, atentas umas às outras. Se ele pára, todos param. Se ele anda, todos andam.
Kingo, o gorila de dorso prateado de 150 quilos, é sem dúvida o rei da selva.
Kingo e sua família de gorilas das planícies do oeste vivem confortavelmente em uma área de selva protegida que abrange a fronteira entre a República do Congo e a República Centro-Africana. Escudada a leste pelo Parque Nacional de Nouabalé-Ndoki e a oeste pelo Parque Nacional de Dzanga-Ndoki na República Centro-Africana, seu território é um dos últimos nacos de floresta pluvial intocada na bacia do Congo. Mas nas florestas próximas houve desmatamento por exploradores de madeira, e isso abriu caminho aos caçadores ilegais, que matam gorilas para vender sua carne selvagem. Sem o empenho de Diane Doran-Sheehy, professora de antropologia da Universidade de Stony Brook no estado de Nova York, a selva de Kingo já teria desaparecido.
Desde 1995, Diane passa até seis meses por ano estudando os gorilas. A área que ela escolheu é parte de uma concessão de exploração de madeira, mas, em 2004, em colaboração com a Wildlife Conservation Society, ela ajudou a persuadir a empresa de produtos florestais Congolaise Industrielle des Bois a dar aos gorilas um trecho de 100 quilômetros quadrados de floresta primitiva chamado de Triângulo de Djéké.
Em seu primeiro ano de trabalho, subvencionado pela National Geographic Society e pela Fundação Leakey, Diane organizou o Centro de Pesquisa de Mondika às margens do rio Mondika, e contratou um grupo de pigmeus baAkas da República Centro-Africana para rastrear os primatas. Em contraste com os gorilas-das-montanhas - menos de 700 animais que habitam os montes Virunga na fronteira de Ruanda, República Democrática do Congo e Uganda -, os gorilas do oeste moram em florestas pantanosas de cerca de 100 metros acima do nível do mar. (Os gorilas classificam-se em quatro subespécies: das-montanhas; das planícies do leste, ou de Grauer; de Diehl; e das planícies do oeste, além dos de Bwindi, uma subpopulação de gorilas do leste.) Não se sabe quantos são, mas eles estão minguando em ritmo alarmante. Devastados pelo vírus ebola e espremidos pela perda de hábitat, sua população pode ter sido reduzida a mais da metade desde a década de 1990, quando as estimativas mais otimistas eram de 100 mil animais. Em setembro de 2007, passaram da categoria "em perigo" para a "em perigo crítico". Embora todos os gorilas mantidos em zoológicos sejam do oeste, sabe-se pouco sobre seu comportamento na natureza.
Diane foi para a bacia do Congo investigar como a busca de alimento molda o comportamento social dos gorilas. Sua hipótese era que esses animais das planícies do oeste tinham de ter dieta diferente da de seus primos das montanhas. Estes possuem pêlo longo, negro, grosso e musgoso, que os aquece no clima frio; enquanto os gorilas do oeste têm pelagem rala e curta, que varia de pardo a vermelho vivo na cabeça.
Criaturas tímidas e desconfiadíssimas, os gorilas fogem de encontros com seres humanos, que estão entre seus poucos predadores naturais. Mas, para estudá-los, é preciso observá-los. E isso requer acostumá-los à presença do observador. Como descobriu em Ruanda a célebre Dian Fossey, que estudou os gorilas-das-montanhas, isso demanda anos acompanhando de perto um dorso-prateado e sua família - é necessário viver com os gorilas. Diane Doran-Sheehy e sua equipe levaram seis longos anos só para localizar e seguir a família de Kingo. Deram nome aos membros da família e então precisaram de mais dois anos para conquistar a confiança deles. "A habituação não teria sido possível sem os rastreadores baAkas", disse ela. "Os baAkas conhecem a floresta, entendem os gorilas, e sua perícia no rastreio é impressionante e crucial."
Patrice Mongo, infatigável pesquisador congolês com mestrado em antropolgia pela Universidade de Stony Brook, é o diretor de campo em Mondika. Ele comanda as atividades diárias dos rastreadores baAkas e tem uma fé quase mística nas habilidades desses homens. "Eles evoluíram na floresta", explica Mongo certa noite no acampamento de Mondika, espantando formigas que esvoaçam em torno de uma vela bruxuleante. "Eles enxergam coisas que nós não vemos, sentem cheiros que não percebemos, ouvem coisas que não escutamos."
Mongo, de 38 anos, conta que a palavra kingo significa "voz", em mbenzele, o dialeto dos rastreadores de Mondika. "No começo da habituação, mesmo sem vê-lo, os rastreadores conseguiam distinguir as vocalizações de Kingo das de outros dorsos-prateados da área. Foi assim que nos aproximamos pela primeira vez desse gorila. Ele tem um rugido especialmente cavo."
Diane logo confirmou que, como ela e outros antes dela suspeitavam, a dieta dos gorilas do oeste difere radicalmente da dos das-montanhas. Estes comem ervas sobretudo - aipo silvestre, urtigas, rubiáceas. Os das planícies do oeste têm dieta mais diversificada, com frutas, folhas e ervas. Também comem cupim, além das folhas cerosas de ngombe e da casca de árvores favoritas. Em certas épocas do ano, os gorilas do oeste são praticamente frugívoros e só querem saber de iguarias da mata, como o fruto do bambu - vermelho, caroçudo, do tamanho de um pêssego - ou o mobei, uma grande fruta amarela que lembra um abacaxi. Nessas temporadas, as frutas podem compor de 60% a 70% da dieta desses gorilas.
Em busca de suas frutas favoritas e de outros alimentos, os gorilas do oeste costumam percorrer cerca de 2 quilômetros por dia, quase o quádruplo do deslocamento dos gorilas-das-montanhas. Procurar comida nessa vastidão molda a dinâmica familiar, descobriu Diane. Os das planícies do oeste são individualmente mais independentes que os gorilas-das-montanhas. Embora demonstrem afeto pelos parentes, não são muito afeitos a catar o pêlo uns dos outros nem ao contato físico, e cada um passa boa parte do tempo sozinho. Isso significa que as fêmeas, e até os juvenis, às vezes podem ficar distantes da segurança do macho dominante - o que não facilita a Kingo proteger sua família.
"Um dia os rastreadores saíram logo ao amanhecer, como de costume", conta Mongo no acampamento de Mondika. "E de repente voltaram correndo, gritando sobre um ataque. Fui verificar e encontrei Samedi, o bebê de Ugly, caído no chão. Havia sangue por toda parte e buracos fundos na terra. Samedi fora mutilado por um leopardo. Chamamos por rádio o veterinário da reserva, mas já não dava para salvar Samedi."
Nessa manhã, os rastreadores varam ligeiros a selva, desviando com elegância de cipós e raízes saltadas como fizeram toda a vida. Levam uma hora para chegar ao local em que viram os gorilas pela última vez, na noite anterior. Dali, três rastreadores espalham-se em busca de pistas. "Eles são capazes de detectar se uma folha de uma planta minúscula está revirada", diz Diane, "e isso já basta para calcularem a direção que os gorilas tomaram."
Sigo os passos do rastreador mais velho. Ele pára de repente, de joelhos, apanha uma folha e aponta para o chão. Pouco visível na terra úmida, há uma marca de nós dos dedos. O rastreador começa a estalar a língua baixinho. Outro responde com três estalidos em tons crescentes.
Essa é uma linguagem simples que os pesquisadores criaram para anunciar sua presença aos gorilas - os estalidos da língua dizem a Kingo e sua família: "Oi, somos nós, aquelas criaturas esquisitas que vocês vêem todo dia, criaturas que não vão lhes fazer mal, nem tirar sua comida nem raptar suas esposas".
Os rastreadores seguem muitas pistas, comunicando-se entre si com os leves estalidos da língua. Dez minutos depois, convergem todos para uma trilha. Trotam em fila única e dali a 15 minutos encontram os gorilas.
A família inteira está numa árvore, comendo o desjejum tranquilamente a 30 metros de altura. Kingo, escarrapachado na forquilha de dois galhos, arranca folhas e as degusta como se fossem bombons. Mekome está perto dele. Mama, Beatrice com Gentil e Ugly com Bomo estão todos em outro galho. Kusu e Ekendi arriscam o pescoço em um vertiginoso sobe-e-desce como se estivessem a 1 metro do chão.
Esses dois juvenis já procuram comida sozinhos, mas ainda mamam. Têm uns 2 anos de vida e só se aproximarão da maturidade lá pelos 11 ou 12. Serão então, muito provavelmente, solteiros vivendo sozinhos na floresta, torcendo para começar o próprio harém. As fêmeas aproximam-se da fase adulta por volta dos 7 ou 8 anos, quando começam a procurar um parceiro. Só podemos conjeturar sobre a idade do patriarca Kingo. Patrice Mongo arrisca que ele tem entre 25 a 30 anos. Se os das planícies do oeste tiverem um período de vida semelhante ao dos gorilas-das-montanhas, Kingo deverá viver até meados da casa dos 30. "Ainda há muito que pesquisar", bufa Mongo.
A idade das fêmeas é desconhecida, com exceção da de George (quando ela era bebê, a equipe pensou que fosse do sexo masculino, acostumou-se com esse nome e o manteve). Por ser a única adolescente, ela está na base da hierarquia das fêmeas, uma posição nada invejável. Sua mãe, Vinny, talvez tenha se sentido negligenciada sexualmente (até o mais bem disposto dorso-prateado pode ter dificuldade para satisfazer todo um harém), e seguiu o exemplo da esposa número 1, Ebuka, que se ressentiu e, em 2005, partiu em busca de um companheiro mais comparecente. Depois que Vinny se foi, Beatrice, cujo primeiro bebê, Mercredi, morrera misteriosamente, cuidou sem compromisso de George. Mas, assim que Gentil nasceu, Beatrice dedicou-se à própria cria.
As fêmeas costumam ter um só filho, após uma gestação de oito meses e meio, e amamentam por três ou quatro anos. Terminada a lactação, estão prontas para acasalar de novo. A mortalidade dos infantes pode chegar a 50% (todas as esposas conhecidas de Kingo perderam pelo menos uma cria); e, quando uma mãe perde um filho, logo reentra no cio. Por isso é que Ugly engravidou de Bomo apenas dois meses depois que o leopardo matou Samedi.
Após comer toda a comida ao alcance de sua mão, Kingo desce como um bombeiro por um cipó do tamanho de um cabo de âncora. Em minutos, o resto do clã, um a um, já deslizou também pela robusta liana.
O caminho que eles fazem pela floresta é errático, frustrante. É missão difícil segui-los. Direita, esquerda, um arco pela esquerda de novo, e Mongo registrando cada mudança de direção em seu GPS. Mas Kingo sabe para onde vai, e logo chega a seu destino, uma colossal árvore Gambeya. É o fim da estação seca, e há poucas frutas de bambu pelo chão. Kingo abre um pequeno globo vermelho, come a polpa e joga a casca fora. Kusu, nos calcanhares do pai, pega a casca e sai mastigando. Ekendy fica com a sobra seguinte. Não há frutas suficientes para manter o interesse de Kingo, e ele segue adiante.
O grupo varre calmamente a floresta à cata de comida, e de repente George descobre uma fruta de mobei no chão. Faminta, começa a rasgá-la com os dentes, tentando ao mesmo tempo afastar-se discretamente da família. Sem sorte.
Kingo, que não deixa passar fruta nenhuma, sente o cheiro ou ouve George comendo e desembesta pela floresta aos berros. George encolhe-se, ele a derruba com um safanão e arranca a fruta de suas mãos. George raspa dali choramingando, e Kingo, refestelado de barrigão para baixo, apóia-se nos cotovelos e devora o petisco. "Comida é tudo para Kingo", sussurra Mongo.
Comer, dormir, despertar, mudar de lugar. Essa é a vida dos gorilas.
O território total da família de Kingo tem cerca de 15 quilômetros quadrados, com partes sobrepostas a de outras famílias de gorila. Pelo menos outros nove grupos habitam trechos da área de Kingo. Os das planícies do oeste não são territoriais, e muitos de seus encontros freqüentes com outros bandos de gorilas são pacíficos. Em contraste, quase sempre os grupos de gorila-das-montanhas demonstram agressividade uns contra os outros: batem no peito, gritam e arremetem. Diane Doran-Sheehy mostrou que os machos dominantes das famílias de gorila do oeste podem ser aparentados (irmãos, meio-irmãos, pais ou filhos), o que talvez explique em parte sua notável tolerância mútua.
No fim da tarde, Kingo apressa-se. Sem paradas, sem moleza, seus braços colossais o impelem pelo emaranhado verde. A família corre atrás. Kusu, para acompanhar, pega carona nas costas de Mama; Ekendy vai de cavalinho em Mekome; Gentil e Bomo agarram-se como carrapatos no peito das mães. Vão tão depressa que os perdemos na selva. Mas os rastreadores não se preocupam. Sabem para onde Kingo vai: ao pântano.
Na manhã seguinte, demoram duas horas para chegar até os gorilas. A trilha desemboca em poças estagnadas de água verde e lodo até a cintura sob um dossel de lianas espinhudas. Mas, quando finalmente irrompemos em uma clareira, a cena é a mais idílica da selva.
Borboletas do tamanho de passarinhos voam ao Sol, aranhas grandes como a mão de uma criança aquecem-se nas raízes, rãs coaxam, libélulas dardejam, insetos zumbem e aves de toda sorte piam, crocitam, gorjeiam, arrulham. E, no meio de tudo aquilo, Kingo - o gigante, o rei da selva. Metido até o peito numa lagoa, o gorila arranca raízes fibrosas de kangwasika, ervas do pântano, lava-as na água e suga os fios como espaguete. Está feliz da vida, sentado em sua imensa tigela de salada.
Aliás, a família inteira parece contente. Ninguém pode chegar perto de Kingo, é claro, mas cada um encontra seu lugar ao Sol. Ugly, meio distante, segura Bomo com a delicadeza de quem está prestes a dar banho no bebê. Kusu e Ekendy não estão à vista, mas são ouvidos fazendo estardalhaço no juncal. George está invisível e inaudível. Beatrice amamenta o bebê em seu sereno pedaço de charco. Mekome abeira-se sedutora da lagoa de Kingo. E Mama, em cima de uma árvore, enche a boca de cupins.
É só uma grande família feliz.
Guia Brasil
Guia de Viagem Itália